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Libertando o dragão da inflação.

postado em Artigos


Revista IstoÉ

10/2012

Por Ricardo Amorim

 

Em todo conto de fadas que se preze, para conquistar a formosa princesa, o príncipe precisa antes derrotar um temível dragão. Com a economia brasileira não foi diferente. Por quase duas décadas, nossa princesa do desenvolvimento foi refém do dragão da inflação.
 
A partir do Plano Real fomos gradualmente domando o monstro. O controle da inflação, somado ao aumento da população em idade de trabalho, e aos impactos na economia brasileira da entrada da China na OMC, permitiu que a taxa média de crescimento do PIB do país a partir de 2004 fosse o dobro da média dos 24 anos anteriores. Além disso, a distribuição de renda melhorou muito.
 
Desde 1999, o dragão inflacionário brasileiro esteve amarrado a um tripé chumbado firmemente. Sua primeira perna é o regime de metas de inflação. À medida que elas foram sendo atingidas, a credibilidade do regime e sua capacidade de balizar as expectativas inflacionárias e de reduzir o risco de uma aceleração foram crescendo.
 
A segunda perna do tripé é o câmbio flutuante. Quando a economia mundial está aquecida, os preços das matérias primas que exportamos sobem e as entradas de capitais no país aumentam, valorizando o Real e barateando produtos importados, o que segura a inflação.
 
A terceira perna é a política de superávit primário do governo. Além de garantir a solvência brasileira – evitando que o país passe por uma crise similar à de muitos países europeus – esta poupança pública para pagamento de juros limita os gastos do governo, reduzindo o risco de que a demanda interna se aqueça e alimente a fogueira inflacionária.
 
Acontece que, de uns tempos para cá, o governo vem serrando as três pernas do tripé. O Banco Central tem reduzido a taxa de juros, mesmo com a inflação acima da meta e em elevação. Para piorar, muitos já desconfiam de sua independência em relação ao governo e de sua capacidade de apertar o cinto, elevando a taxa de juros para segurar a inflação, quando necessário.
 
A julgar pelos últimos meses, o dólar agora só pode flutuar entre R$ 2,00 e 2,05. Uma taxa de câmbio mais desvalorizada encarece produtos importados, elevando a inflação.
 
Por fim, o governo já admite que a meta de superávit primário não será cumprida. De quebra, para proteger alguns setores da indústria, o governo vem elevando a alíquota de importação de diversos produtos, colaborando para preços e inflação mais altos por aqui.
 
Não bastasse o tripé já meio bambo, o dragão está ganhando força por outros fatores. O desemprego é o mais baixo da história, gerando elevações de salário acima da inflação, o que é ótimo do ponto de vista social, mas também eleva os custos de produção, pressionando os preços.
 
Além disso, os países ricos emitem moeda no ritmo mais acelerado da História. Isto eleva os preços de matérias primas, ajudando nossas exportações. No entanto, sem apreciação cambial, a inflação por aqui aumenta. O preço da gasolina, por exemplo, subirá em breve ou a Petrobrás terá de cancelar investimentos.
 
Por fim, a quebra de safra de grãos em várias partes do mundo devido a um clima desfavorável elevou ainda mais os preços dos alimentos.
 
Em resumo, se o governo não voltar a reforçar o tripé anti-inflacionário, não se assuste se encontrar o dragão inflacionário voando cada vez mais alto e levando com ele nossa princesa do desenvolvimento.
 
Ricardo Amorim
 

Economista, consultor, apresentador do programa Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ e presidente da Ricam Consultoria. Realiza palestras em todo mundo sobre perspectivas econômicas e oportunidades em diversos setores Único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do site inglês Speakers Corner e economista mais influente do Brasil e um dos dez mais influentes do mundo segundo o site americano Klout.com.





    JulioK disse:
    20 de outubro de 2012 às 18:26

    Ricardo,

    Infelizmente, essa é verdade!

    Quanto a independência do BACEN, a muito tempo o gatinho subiu no telhado!

    JulioK



    Ana d'Angelo disse:
    22 de outubro de 2012 às 15:53

    Gosto muito do seu trabalho. No Manhattan Connection, sempre é o ponto de equilíbrio nos debates, ponderando de forma firme e justa. Estou aqui agora me inspirando para uma pauta.



    Waldir Rodrigues Alves disse:
    22 de outubro de 2012 às 16:37

    É isso aí Amorim – Ressalto que somos o maior produtor de proteínas do mundo. Todo ser vivo (mamífero)necessitra todos os dias desse produto brasileiro.
    Pense nisso!! – Waldir.



    Paulo Costa disse:
    23 de outubro de 2012 às 8:05

    Análise magistral, didática, cirúrgica, direta aos pontos. Parabéns!



    Mauro Silva disse:
    23 de outubro de 2012 às 8:10

    Ricardo,
    A forma simples, objetiva clara de seu artigo faz com que leigos como eu possam entender na integra o tema.
    O Rei está Nú e Nós estamos em silencio.



    23 de outubro de 2012 às 8:27

    Caríssimo

    Mais uma vez a sua análise é cirurgica. O BC perdeu o pé ou tripé e agora está voltado a uma Política desenvolvimentista que, sem investimentos, só alimenta o dragão. Com o dragão forte volataremos à ciranda de planos mirabulantes?

    Francisco Avila



    Vera Lima Bolognini disse:
    23 de outubro de 2012 às 8:32

    Prezado Sr. Ricardo,

    De fato, o governo precisa reforçar o tripé anti-inflação. Seu artigo é oportuno. talvez fosse importante, não sei se caberia aí o senhor mencionar alguns fatores que corroboram para o aumento do desemprego, a alta carga tributária que onera e penaliza nós empresários, especialmente, os pequenos, as taxas estonteantes cobradas pelos bancos, as taxas ainda mais estonteantes cobradas pelas operadoras de crédito. Outro fator, o peso grande que hoje temos para gerar e manter uma vaga de emprego. Como custa ter um funcionário? Que país é esse Sr. Ricardo? Onde está o incentivo para o micro, o pequeno empresário, o prestador de serviço, essa gente toda que faz a economia girar? Então, essa realidade precisa ser vista, avaliada, pois, assim, ninguém se sustenta nesse imenso Brasil varonil. Vamos, todos, quebrar, nos arrebentar e depois não haverá ninguém sequer para juntar os cacos.

    Atenciosamente,



    23 de outubro de 2012 às 15:49

    Prezados,
    E ai, numa tentativa desesperada de conter a inflação, emite-se a MP579 que trata da quebra dos contratos das concessões de energia, deixando o milionário segmento do mercado livre de energia sem qualquer base para seu crescimento ordenado.
    Otavio



    Domingos Pascoal Pereira de Souza disse:
    24 de outubro de 2012 às 17:17

    A volta da inflação é ruim para todos, principalmente para a tão sofrida classe trabalhadora, que tem respirado um pouco mais com folga.



    Pedro Sarro disse:
    13 de novembro de 2012 às 6:42

    Ricardo, tenho acompanhado muito seus artigos e admiro muito sua independência, franqueza e arrojo.
    Sempre gostei de política, mas quando descobri que a macro economia dita as regras, comecei a gostar de economia, mesmo sendo arquiteto de formação .
    Gostaria de saber se meu parco conhecimento de economia esta correto?
    Desde os cinco dedos da campanha do Fernando Henrique, falamos das reformas que o pais tanto necessita, então lá vai.
    Vivemos décadas de um processo recessivo, e o governo como arrecadava cada vez menos e suas despesasmcada vez mais foi aumentando os impostos até chegar aos níveis atuais, onde não temos competividade na nossa industria e um custo Brasil muito alto.
    Com o controle do dragão veio o crescimento econômico e o aumento da arrecadação com superávites extraordinários, mas o governo ao invés de aproveitar o crescimento e fazer a tão sonhada reforma tributaria esta aumentando sua despesas numa proporção nunca visto.
    Logo ao invés de baixarmos os impostos ,mantermos a arrecadação,aumentarmos a competividade do pais e criarmos um colchão para uma futura crise aumentando os impostos quando necessário, estamos gastando numa curva quase diretamente proporcional a curva da
    Arrecadação .
    Minha conclusão quando o pais enfrentar uma grande recessão, e a curva da despesa cruzar a curva da arrecadação estaremos quebrando como a Europa?



    Mises disse:
    1 de dezembro de 2012 às 11:16

    Pedro, permita-me dar uma outra explicação para este problema – as décadas de processo recessivo, culminando na década perdida foram fruto do governo e sua emissão pornográfica de papel moeda.
    e é justamente a emissão de papel moeda que causa a inflação de preços, o papel moeda era emitido para o governo financiar suas lambanças e justamente por ele ter
    acesso irrestrito à sala da impressora de dinheiro é que ele não se preocupava com a carga tributária. o raciocínio é simples: há uma conta a ser paga e não temos dinheiro?, vamos imprimir.
    e isto instalou o caos no país em nível insuportável, ai então veio o plano real.
    E não é a toa que era necessário um ajuste fiscal, agora se o dinheiro na carteira do estado acabasse não poderia mais imprimir com a mesma facilidade. Com um controle maior sobre a impressora da base monetária foi necessário aumentar impostos.

    Sobre os superavites uma breve explicação – nunca tivemos, os numeros que o governo informa são os superávites primários, que excluem da conta despesas financeiras. E lamento informar-lhe, este colchão que você sugere que seja feito é impossível, por dois motivos, o governo sempre vai gastar mais e existe um teto para o aumento de impostos, se aumentar demais a arrecadação cai.



    Filipe disse:
    12 de janeiro de 2013 às 10:56

    Gosto muito dos seus comentários, sou seu fã de carteirinha. Domingo 22:00 hrs já estou conectado.

    Grande abraço e sucesso
    Filipe



    José Geraldo Ricardo disse:
    9 de fevereiro de 2013 às 14:54

    Inflação de 6,15% ao ano. Enquanto não tivermos um governo comprometido com a redução da carga tributária, incentivar a produção das indústrias, investir em educação e em educação básica, viveremos a sombra do dragão da inflação.



    Ricardo Costa disse:
    13 de fevereiro de 2013 às 10:25

    Ótima matéria!
    Neste cenário complicado, com inflação crescente e queda radical da SELIC, temos também a elevação dos preços dos imóveis (já li outro excelente artigo seu sobre este tema) ==> se este cenário se prolongar, então mais pessoas continuarão a fugir de aplicações líquidas que rendem a a baixo da inflação e buscarão imóveis e outros ativos que se demonstrem mais atraentes (vide o crescimento dos fundos imobiliários, ações de empresas de Shoppings, …), que por sua vez poderão criar outras distorções no mercado brasileiro …



    Libia Amaral disse:
    28 de fevereiro de 2013 às 15:56

    Falando como dona de casa, a inflação nós a sentimos mesmo é na gôndola do supermercado, preços cada vez mais elevados, a gente compra menos, só vai contribuindo,né?
    Os bilhões gastos pelos brasileiros em Miami fazem falta aqui no Brasil, também.



    Tomoko disse:
    1 de março de 2013 às 17:15

    Acho que eh justamente isso que o governo PT quer, porque eles sabem que nao tem competencia pra controlar a inflacao. Eles so tem labia. Quando a inflacao nao tiver mais controle, eles vao decretar a ditadura comunista de vez, porque estara muito parecida com a amada Cuba, ou vao deixar o PSDB voltar ao governo pra arrumar a casa, pra eles desarrumarem de novo. Ja que quando algo vai bem, eh merito deles, mas quando vai mal, a culpa eh dos outros. O Brasil eh uma grande piada!!!



    Renato Castelo de Oliveira disse:
    3 de julho de 2013 às 21:26

    O PT parece desconhecer o imenso esforço para domar o dragão. Quando chegou ao poder, a fera esta dormindo e amarrada. Será que teremos mais uma geração sacrificada por um partido de políticos tão corruptos quanto incompetentes?



    Ramon disse:
    29 de outubro de 2013 às 20:13

    Poise eu já vi economistas falando em taxa Selic em 13% e inflação em 8% entre o 2ºe 3º trimestre de 2014.

    Por enquanto o governo mantém o discurso de 9,5% e 6%.

    Enquanto estivermos gastando mais do que ganhando e dependermos do capital estrangeiro para rolar nossa dívida pública o dragão nunca será domado.



    Roberto Campos disse:
    11 de janeiro de 2014 às 10:26

    Bom dia Ricardo,

    Eu até hoje não entendo porque ninguem no Brasil vincula o tal milagre do crescimento entre 2008 e 2012 á implantação do sistema de notas fiscais eletronicas em todos o pais.
    No segundo semestre de 2008 as grandes industrias foram obrigadas a entrar no sistema e em 2009 todas as empresas que apuravam o IR pelo Lucro Real. Em 2010 em médias empresas foram entrando no sistema de forma escalonada até 2011.
    Com o sucesso do sistema nos estados as prefeituras foram implantando paulatinamente, mas somente o sudeste fez diferenca na implantacao e arrecadacao federal.
    Com o fim da implantacao o que se ve hoje é uma sonegacao menor de impostos por parte das empresas serias no pais.
    Isso, na minha opiniao, fez uma diferenca que apareceu na arrecadacao federal que mostrava o tal “milagre brasileiro” no periodo 2008-2012.
    Eu venho falando para todos que a partir de 2013 os numeros iriam piorar nas estatisticas e que se voce expurgar o crescimento relativo a diminuicao da sonegacao o pais esteve durante todo esse periodo em recessao!
    Nunca crescemos de verdade, apenas diminuimos a sonegacao!
    Com isso os custos aumentaram!
    E agora as coisas irao complicar de verdade.

    Porque ninguem fala nisso??



    Geraldo disse:
    15 de julho de 2014 às 11:22

    Só uma coisa me incomoda, Ricardo.
    Você diz que temos o menor desemprego da história, o que deveria ser bom, mas acaba sendo ruim por pressionar os preços. Outra coisa que deveria ser boa, os juros baixos, também pressionam a inflação. Ou seja, fora o superávit primário, os remédios contra inflação são venenosos pro pais!
    Imagino eu que desonerar a produção reduzindo a carga tributária também é inflacionário. Deve haver um jeito de curar essa doença sem matar o paciente.



    joel disse:
    10 de agosto de 2014 às 20:35

    Sou fã do seus artigos, são viciantes!!!



    Alexandre Brum disse:
    10 de janeiro de 2015 às 20:59

    Vi esse dragão, hoje, ao fazer compras no supermercado.



    11 de junho de 2015 às 21:02

    Enquanto isso a Alice estava pensando que estava no mundo das maravilhas junto com o seu chapeleiro maluco de 4 dedos.



    Marco disse:
    27 de junho de 2016 às 12:31

    O Dragão está solto. Temos que ter muito cuidado com ele.



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