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Diagnóstico errado.

postado em Artigos


Revista IstoÉ

01/04/2011

Diagnóstico errado
Mitos sobre a desindustrialização do Brasil levam a gastos equivocados por parte do governo

 

Como qualquer calouro de medicina aprende ao entrar na faculdade, para tratarmos uma doença, antes temos de diagnosticá-la corretamente. Tratando catapora como sarampo, as chances de sucesso caem bastante.

Hoje, há um diagnóstico quase unânime de que o Brasil está passando por um processo de desindustrialização grave, causado pela valorização do real e seus efeitos nocivos sobre a competitividade nacional.

Tanto o diagnóstico quanto sua suposta causa cambial estão equivocados. Nossa indústria vem batendo recordes. No ano passado, o crescimento da produção industrial, superior a 10%, foi o maior em 25 anos. O número de empregos criados no setor foi o mais elevado da história, assim como o percentual de empresas que pretendem contratar mais trabalhadores neste ano. Cresceu também o volume de investimentos. Nosso setor manufatureiro passou de oitavo a sexto maior do mundo, ultrapassando França e Reino Unido. Em 2000, nossa indústria era apenas a décima do mundo.

Ficaram todos loucos, então? De jeito nenhum. Efeti­vamente, a participação dos produtos industrializados importados no mercado brasileiro está aumentando e nosso volume de exportações caindo. Hoje, excluindo-se veículos, ele é 25% menor do que há três anos. Além disso, nos últimos oito anos, o varejo cresceu mais do que a indústria em todos os anos. Entretanto, as razões dessa disparidade de desempenho são muito mais complexas e profundas do que a simples queda do dólar.

O volume de exportações brasileiras para os EUA, nosso principal destino externo para manufaturados, foi no ano passado 36% inferior ao período anterior à crise. Nossas exportações para Japão e Europa também ainda não retornaram aos patamares pré-crise. Reflexo de uma brutal contração de consumo por lá e forte expansão por aqui, levando nossa indústria e a deles a redirecionar produtos para o mercado brasileiro. Enquanto isso, nossas exportações para a China – o país que mais cresce no mundo e principal importador de nossas matérias-primas – aumentaram 77% apenas em quantidade desde a crise, sem falar no ganho de preço. Em resumo, menores exportações de industrializados para países ricos e maiores importações de lá não refletem nossa fragilidade, mas a deles.

Como a valorização da taxa de câmbio foi apontada como a causa das dificuldades da indústria, o governo vem adotando medidas para limitá-la. Uma delas vem sendo um colossal acúmulo de reservas internacionais – uma espécie de seguro contra crises –, que nos últimos oito anos se multiplicaram quase por dez.

Acontece que todo seguro tem um custo; no caso, a diferença entre a taxa de juros dos títulos brasileiros, cerca de 11% ao ano, e a taxa dos títulos americanos, próxima a 3%, multiplicada pelo tamanho das reservas – cerca de US$ 320 bilhões. Atualmente, a conta chega a mais de R$ 40 bilhões por ano.

Nos últimos quatro anos, os investimentos públicos em infraestrutura cresceram mais de 50% em termos reais. Ainda assim, desde 2009, gastamos mais com a manutenção de nossas reservas do que com estradas, aeroportos, ferrovias, portos que tornariam o País mais competitivo. Além de investir mais, se gastasse menos com as reservas, o governo poderia reduzir impostos, estimulando nossa produção e consumo.

Diagnosticamos a doença errada e gastamos com o tratamento errado. Se estivesse na faculdade de medicina, nossa equipe econômica seria reprovada no primeiro ano.

Ricardo Amorim é economista, apresentador do programa “Manhattan Connection”, da Globonews, e presidente da Ricam Consultoria





    cesanildo disse:
    16 de abril de 2011 às 9:52

    Gostaria de saber se o custo de manutenção dessas reservas – a taxa de juros – tem como finalidade essa reservas em patamares maiores ou tem como causa primária, segurar a inflação? O Governo não seria forçado a utilizar esse instrumento de política monetária para segurar a inflaçao,cuja consequência seria o aumento de tais reservas?

    É a primeira vez que acesso essa página, a partir de uma entrevista a que assisti na TV Câmara, com Ricardo Amorim. Desde já sou mais um admirador desse competente economista.



    igor cornelsen disse:
    26 de abril de 2011 às 10:29

    A história econômica do Brasil mostra que a indústria se desenvolveu em períodos de dificuldades cambiais, quando a importação de bens de consumo e de capital se tornaram muito difíceis.
    Em preíodos de abundância cambial a indústria perdeu participação no PIB, e substituiu manufaturados locais por importados.
    Vivemos um período de excesso de divisas, e pior a grande maioria é de dinheiro tomado emprestado no exterior. Podemos antecipar um futuro de volatilidade na taxa de câmbio, que não vai ajudar a atrair investimentos industriais.
    Isto não invalida o argumento do problema fiscal e nem na falta de gastos públicos em educação e infraestrutura.
    O problema é que o estado brasileiro gasta demais com aposentadorias e pensões privilegiadas, e os provilégios foram apelidados de “diretos adquiridos”.
    Enquanto não formos sérios na abordagem do tamanho do estado brasileiro, e de suas causas, não adianta nos queixarmos da elevada carga tributária e da falta de infraestrutura e educação, elas vão continuar a pesar e a não ter solução.

    Atenciosamente,

    Igor Cornelsen



    Antônio Carlos Marrtinez disse:
    26 de abril de 2011 às 10:53

    Presado Ricardo,

    Infelizmente os nossos administradores públicos só sabem fazer qualquer ação com dinheiro, haja visto que seja á logíca correta, porém não trabalham na contenção deste,cortando despesas, pois teem medo de perda de votos, nossa camada de eleitores votantes infelizmente não teem informaçãos precisas sobre os nossos adiministradores (deputados,senadores e seus comandados) que regem á economia do país , enquanto nós não nos pronunciarmos , quando digo nós, são as pessoas que pagam tributos, á economia continuará sendo adiministrada pelo volume dos recursos liberados, não pela adiministração eficaz de de corte de despesas surpeflas , haja vistos as obras paradas, cujos recursos foram liberados e continuam esperando aditamento de mais dinheiro nos contratos já firmados cujas concorrencias aconteceram,

    Parabenizo, mais uma vez peo seu artigo, pois estes alertas servem para que nós estejamos mais atentos, e que continuemos fazendo á nossa parte quando possivel, lamento só que estes comentários não atijam as camadas mais humildes da nossa população,

    Forte abraço,

    Antônio Carlos Martinez



    Moises Pinsky disse:
    26 de abril de 2011 às 11:18

    Ricardo,

    Nao tenho dados concretos em maos,mas me parece que o crescimento industrial a que voce se refere deve ter ocorrido principalmente nas industrias de processamento primario de materias primas,como na atividade de mineracao,agroindustria,etc.Se o Brasil fosse um pais de 50 milhoes de habitantes,nao teria duvida que nosso modelo exportador seria vitorioso,como a Australia,Canada,Chile,etc.Tendo uma populacao de quase 200 milhoes,a grande dependencia em um numero pequeno de produtos com alta volatilidade de precos nao nos assegura um futuro tranquilo,a menos que Deus continue sendo brasileiro…



    26 de abril de 2011 às 15:37

    Seus artigos são sempre bem vindos e enriquecedores.
    Concordo parcialmente com seu diagnóstico.Como relatado,temos um aumento dos produtos importados no mercado nacional , diminuição da exportação e varejo maior que a indústria.Existe um descompasso grave no mercado que se reflete na inflação e, sim, na industrialização.Não há porque produzir se posso adquirir mais barato importando. Portanto, temos um processo de desindustrialização.Um setor da economia quando é afetado por uma brutal concorrência e por falta de competitividade( melhores práticas,tecnologia e processos) sua recuperação, mais tarde, é muito difícil.Caso da indústria textil, calçados. Ficaram esquecidos , sem condiçoes de competir no mercado.No mais, seus argumentos são sólidos e inquestionáveis.



    Leidimar Pereira Murr disse:
    26 de abril de 2011 às 23:22

    Meu caro Ricardo,

    Gosto muito de seus comentários e artigos. Sendo leiga em economia procuro compreender a distância entre intenção e gesto que parecem traduzir [pelo menos para o leigo] a política econômica brasileira. Sua analogia da Economia com a Medicina me despertou para algumas reflexões.

    Como na Medicina, também na economia, o diagnóstico e o tratamento são apenas os meios para que se promovam resultados para o paciente e a sociedade. De nada adiantará o diagnóstico correto nem o tratamento certo se o resultado não promover uma melhoria efetiva para as pessoas (essas sim o fim da Medicina, como da Economia). Por isso, como médica, me preocupa constatar que a cada melhoria do(s) índice(s) da economia corresponde – pp. em países e cidades emergentes – uma piora da qualidade de vida para as pessoas individualmente e para a sociedade em geral. Explico: construir estradas e aeroportos é bom, mas não deveria ser feito de forma que o ruído (poluição sonora) e os acidentes aumentem de forma desproporcional à melhoria que indubitavelmente significam; ou seja, de forma que a relação custo-benefício leve em conta também a qualidade de vida. Construir um Shopping Center é bom, mas de forma que a acessibilidade a ele e ao seu entorno não seja prejudicada e de forma que não expulse os moradores da região ou impossibilite a moradia em seus arredores ou deteriore a qualidade de vida (pela violência, acidentes, poluição etc.). O sistema de esgotos tem que ser construído e feita a manutenção de forma que não gere acidentes exóticos e mortes evitáveis.

    Em suma, estou preocupada com esse desenvolvimento às avessas que estamos experimentando no Brasil, ao ponto de lembrar do ditado “Operação bem sucedida, paciente morto!”. Não desejaria para mim nem para os meus filhos e netos, nem para a sociedade brasileira, que ao operacionalizar esse crescimento econômico os tomadores de decisão deixassem de lado “o fim” de todas as medidas da Economia como da Medicina: viver melhor!
    Se para tal propósito a industrialização e a infra-estrutura a ser alcançada (em sentido amplo) necessitam caminhar de maõs dadas (ainda que isso provocasse uma leve desaceleração do crescimento), talvez devéssemos defender tal medida para que tivéssemos um Brasil melhor para se viver.
    Reconheço que o Brasil teve uma grande melhora quantitativa. Basta mencionar que não podemos negar a queda da mortalidade infantil por exemplo; mas também não podemos ficar alheio aos índices de mortes evitáveis decorrentes da violência, nem podemos ficar alheio ao fato de que esta violência está muito frequentemente associada a esse crescimento às avessas fomentado por um raciocínio fragmentado (se não da Economia) mas da política econômica. Se as mães que perdiam seus filhos precocemente para a mortalidade infantil hoje continuam perdendo-os sob a rubrica de outras causas evitáveis (violência urbana, violência do trânsito, acidentes de trabalho etc) então ainda há muito a ser feito. Esse deslocamento do problema interessa tanto a Medicina quanto deve interessá-lo a Economia. Nesse sentido, a analogia da Medicina com a Economia auxilia a vislumbrar índices e medidas que podem conduzir o país não a um mero crescimento econômico, mas a um desejado [até mesmo para que se sustente o crecimento econômico] avanço da sociedade.



    27 de abril de 2011 às 12:45

    Concordo plenamente com o o diagnostico, e nossa indústria ainda vai ser culpada pela inflação.
    Não temos infra estrutura, banco de financiamento a exportação, e não temos mais o efeito deflacionário dos produtos da China, e o preço das commoditis nossas se ajustam ao cambio (dolar desvaloriza aumenta o preço)trazendo nossos índices inflacionário para cima, irremediavelmente.
    Gostaria de ver um artigo sobre esses dois temas.



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