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A formiga e a cigarra trocam de papéis.

postado em Artigos


Revista IstoÉ

30/04/2010

A formiga e a cigarra trocam de papéis

Na ciranda econômica global, China e EUA inverterão seus papéis e quem sairá ganhando com isso é o Brasil

Imagine um mundo onde os produtos são feitos nos Estados Unidos e consumidos na China. Impossível? Pois saiba que você vai viver neste mundo nos próximos anos. 

A China tornou-se o grande centro de produção global ao longo dos últimos 30 anos. Neste período, as exportações chinesas passaram de meros 5% a 37% do seu PIB. Ao comprar um brinquedo, roupa, telefone ou qualquer outro bem de consumo, todos nos acostumamos com a etiqueta Made in China. 

Boa parte dos produtos chineses terminava nos Estados Unidos, onde o consumismo, movido a crédito farto, parecia não ter fim. Aliás, não tinha mesmo. Na terra do Tio Sam, quando o limite do cartão de crédito acabava, era só pedir um cartão novo e rolar a dívida do primeiro. Quando a carteira já não cabia mais no bolso de tantos cartões, havia sempre a alternativa de refinanciar a hipoteca da casa e liberar mais uma dinheirama para financiar a gastança. Com isso, o hábito de poupar foi abolido no país. A família americana média gastava mais do que ganhava, todo santo mês. 

Enquanto as cigarras americanas gastavam, as formigas chinesas poupavam. Desde 1962, o consumo em proporção do PIB despencou na China, passando de 72% para 36%. 

O inverno chegou. É hora de as cigarras trabalharem e as formigas cantarem. A crise financeira minou a capacidade de consumo de americanos, europeus e japoneses. Os consumidores americanos viram mais de US$ 1 trilhão em crédito sumir. Nunca antes na história daquele país. 

Junto com o crédito, foram-se os empregos. Oito milhões e meio de americanos ficaram sem emprego desde o início da Grande Recessão – como a crise foi apelidada por lá. Sete milhões deles estão desempregados há mais de seis meses, quase o dobro do recorde anterior. 

Sem crédito nem emprego, e endividados até o pescoço, os americanos foram forçados a apertar os cintos e voltar a poupar. Após a crise, a poupança das famílias americanas tem oscilado entre 4% e 6% da renda. Este nível é apenas metade da média registrada no pós-guerra, sugerindo que os americanos terão de se tornar ainda mais frugais, obrigando os chineses a redirecionar suas vendas a outros mercados. Só há duas opções: mercados emergentes – preparem-se para uma invasão de produtos chineses por aqui – e os próprios consumidores chineses. 

Por outro lado, sem a gastança dos americanos, as empresas sediadas nos Estados Unidos terão de vender seus produtos em outras bandas. A opção natural será por mercados emergentes, onde o crédito, a renda e a demanda estão em franca expansão. Para que os Made in USA se tornem mais competitivos, o dólar terá de cair nos próximos anos, provavelmente muito.* As oportunidades e riscos que esta gradual inversão de papéis entre Estados Unidos e China trarão para a economia brasileira são enormes. 

Devido às gigantescas diferenças de nível de renda, chineses e americanos consomem produtos diferentes. Com o crescimento do consumo chinês, o agronegócio brasileiro – cujo superávit comercial passou de US$ 10 bilhões para US$ 60 bilhões entre 2000 e 2008 – será ainda mais importante. A China já é, há anos, o maior consumidor mundial de metais e minérios. Este ano, vai se tornar o maior de energia. 

Enquanto isso, a concorrência para as empresas brasileiras em produtos e serviços sofisticados – nos quais os americanos são competitivos – ficará ainda mais acirrada. 

Prepare-se para este admirável mundo novo. Caso contrário, quem pode acabar passando frio no inverno de La Fontaine é você. 





    Luiz Augusto Mietto disse:
    4 de janeiro de 2012 às 8:01

    Pois é Ricardo, nem tudo que sobe cai, com todas as dificuldades de mercado que surgem a toda hora,devido a acomodação catastrófica dos paises atingidos pela crise, continuamos para frente e para o alto.
    abraço



    Luiz Augusto Mietto disse:
    4 de janeiro de 2012 às 8:09

    Bom dia Ricardo, voltando a formiga
    pergunto: como pode um povo sem leis trabalhistas, aposentadoria, com uma agricultura rudimentar investir ?
    abraço



    Luiz Augusto Mietto disse:
    4 de janeiro de 2012 às 8:21

    Por outro lado, me pergunto, como é possível, todas as mídias tecerem comentarios maravilhosos sobre este pais que escraviza mão de obra, em nenhum momento vi ou li
    algum noticiário, dando conta das mazelas que estão lá.
    USA sucateou sua ind. textil em prol as ind. chinesas,…e agora?
    abraço



    Ericson disse:
    27 de janeiro de 2012 às 23:28

    O Brasil continua a mesma porcaria de sempre, sem saúde, educação, transportes e segurança. Políticos, ministros inclusive, roubando até dizer chega e um judiciário que não fica atrás. Só salva SP e olhe lá!
    Quanto aos EUA, em geral é uma maravilha, ótimas estradas, hospitais magníficos, produtos, carros e casas com preços decentes e uma população super educada.
    Já a China nem vale comentar, tirando meia dúzia de cidades grandes, o resto ninguém sabe, mas deve ser um favelão.
    Lembre-se economia é WELLNESS e não números!



    Mônica disse:
    24 de maio de 2012 às 11:24

    Com esta enxurrada de produtos made in China e made in USA nossa indústria vai sofrer. Aumentando o consumo de commodities teremos aumento no preço dos alimentos. A exportação de metais e minérios vai compensar tudo isso?



    Janquiel Moscovici disse:
    4 de março de 2013 às 6:46

    Caro Ricardo

    Meu comentário é dirigido à alguns de seus leitores que usualmente lançam farpas e criticas a China. Saibam que lá trabalho, em empresa de pequeno porte, e portanto, convivendo com o cotidiano Chinês. O que testemunho é um trabalhador com mais liberdade que o nosso e muito bem amparado por leis trabalhistas simples e objetivas. Sugiro procurarem conhecer para criticar caso contrario, os meus companheiros de leitura beiram o ridículo.



    Ryan Giggs disse:
    5 de janeiro de 2016 às 23:42

    Também faço a pergunta do Luiz Augusto Mietto “como pode um povo sem leis trabalhistas, aposentadoria, com uma agricultura rudimentar investir?”



    20 de janeiro de 2016 às 9:17

    É muito louco pensar nos americanos “apertando o cinto”, mas a realidade é diferente do que conhecemos. Agora o problema é o Brasil, que sempre está no mesmo lugar, sempre do lado que aperta o cinto, e quando não é tem uma economia populista com dias contados. Excelente Artigo.



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