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A tragédia europeia.

postado em Artigos


Revista IstoÉ

05/03/2010

 

A tragédia europeia

 

Ou a zona do euro se despedaça ou a crise da dívida pública vai piorar muito. Provavelmente, os dois ocorrerão

 

Segundo Niels Bohr, Prêmio Nobel de Física de 1922, “predição é muito difícil, especialmente se for sobre o futuro”. Ele não ganhou o Prêmio Nobel à toa. Ainda assim, vou me arriscar e fazer uma previsão. Pior, sobre o futuro. A zona do euro ruirá em breve, talvez este ano.Na primeira vez que cometi a heresia de dizer isto, no ano passado, quase me internaram. Deveriam ter internado. De lá para cá, minha convicção aumentou. A tragédia grega é só o início do acirramento das tensões no Velho Continente. A fim de expandir mercados para exportações e reduzir seu custo de financiamento, os países da zona do euro abriram mão de controle sobre política cambial e monetária.
 

Só que cada um manteve sua soberania política e fiscal. Seus governos taxam cidadãos e gastam dinheiro público como bem entendem e, quando gastos ultrapassam receitas, emitem dívida livremente, como qualquer outro país.Esta dicotomia entre políticas monetária e cambial idênticas e políticas fiscais independentes se sustentou até aqui por duas razões. Nos anos que antecederam o colapso do mercado imobiliário americano, época de dinheiro abundante, investidores faziam vistas grossas a desequilíbrios fiscais. Além disso, até 2007, estes desequilíbrios eram bem menores. Ao eliminar trilhões de dólares da riqueza mundial, a crise levou investidores a se preocuparem com a quem emprestam.
 

Para piorar, a situação fiscal dos países europeus se deteriorou, em alguns casos, muito. Governos viram-se forçados a socorrer instituições financeiras à beira da falência e consumidores endividados até o pescoço, muitos deles sem emprego. Para evitar uma recessão ainda mais profunda, aumentaram muito gastos e déficits, que em diversos casos já não eram pequenos.
 

Para financiar a gastança, emitiram-se quantidades enormes de dívida pública. Os investidores começaram a desconfiar que dívidas e déficits tão grandes dificilmente serão pagos e cortaram o financiamento, bem na hora em que os europeus mais precisavam.
 
Surge a insustentabilidade da zona do euro. Países que, no passado, conseguiram sair de uma situação parecida com a dos chamados “porcos” europeus – da sigla PIGS, iniciais de Portugal, Irlanda/Itália, Grécia e Espanha em inglês –, sem ter de passar por um calote, adotaram um mix de estímulo monetário, desvalorização cambial, ajuste fiscal e ajuda externa.
 

Aí que a porca europeia torce o rabo. Na união monetária, cada país não tem controle sobre estímulo monetário ou desvalorização cambial. Além disso, cortes de gastos públicos– leia-se salários de funcionalismo público, aposentadorias, programas de governo, etc. – provavelmente não serão politicamente viáveis.
 

No campo da ajuda externa, entraves políticos também emperram. Em nome da soberania europeia, o apoio financeiro do FMI foi dispensado. As dívidas dos PIGS são tão grandes que um pacote de resgate vindo da única economia grande e sólida da Europa, a Alemanha, talvez deixe a própria em situação crítica. Além disso, convencer um trabalhador alemão de 67 anos a sustentar o sistema de previdência da Grécia, onde alguns se aposentam aos 54 anos, não parece tarefa fácil. Ou a zona do euro se despedaça ou a crise da dívida pública europeia vai piorar muito. Provavelmente, os dois. Não digam que não avisei.
 





    Leonardo disse:
    10 de novembro de 2011 às 12:54

    Ricardo,

    Eu concordo do ponto de vista econômico, tecnicamente a EU poderia ruir em pouco tempo.
    Mas tendo em vista o fator político, creio que se acontecer, deverá ser perto do meio do ano que vem.



    Lissandro disse:
    10 de novembro de 2011 às 17:50

    Ricardo sabemos q isso nao é novidade e nao espanta, desde meados dos anos 1980 essas grandes corporações financeiras internacionais se fortalecem. Hoje elas controlam os governos e os organismos multilaterais, como o FMI, o Banco Mundial e o Banco Central Europeu. Isso ficou claro na crise de 2007/2008, quando um grupo dos mais importantes executivos, reunido com o FMI, impôs aos governos nacionais que se endividassem para salvar os grandes bancos privados. E os governos se endividaram muito além de sua capacidade.
    Esse endividamento golpeou o governo da Irlanda, da Grécia, de Portugal, da Espanha e da Itália, e coloca sob ameaça mesmo a França e a Inglaterra. Novos pacotes de volumosos empréstimos foram mobilizados, com uma importante participação das grandes corporações financeiras internacionais, que viram nessas operações, com taxas de juros recordes, a possibilidade de grandes ganhos.O que está em questão é o poder dessas grandes corporações financeiras internacionais. Se elas continuarem governando o mundo, a crise só se aprofundará. Abre-se então um novo campo de debate. Como superar essa crise?

    O que era inimaginável poucos anos atrás está sendo discutido como uma das opções: a estatização do sistema financeiro privado − algo que a Índia já fez há mais de dez anos.

    Aliás, vale lembrar que tanto a Índia como o Brasil (que tem 48% de seu sistema financeiro nas mãos de bancos públicos), pela importância do sistema financeiro público, puderam tomar medidas coordenadas de políticas anticíclicas e assim reduzir o impacto da crise de 2007/2008 sobre sua economia e sociedade.

    Uma alternativa em discussão é a proibição da operação com derivativos: trata-se de impedir o sistema financeiro de especular e operar sem o necessário lastro de riqueza. Mas essa é uma política que necessita de coordenação internacional, e os atuais organismos de regulação internacional estão capturados pelos donos do poder. Ou seja cada vez mais os bancos controlam os governos



    10 de novembro de 2011 às 23:55

    Oi Ricardo! Se o euro realmente ruir, como os países iriam emitir novas moedas e iniciar uma acomodação de valores em referencia ao dólar, por exemplo, depois emitir tanta divida, mesmo Alemanha. Se nao estou enganado, emissão de moeda sem lastro e muito perigoso. Poderia gerar inflação e uma desvalorização espiral? Obrigado.



    13 de dezembro de 2011 às 8:36

    Pois vou te dizer que concordo completamente com o Ricardo Amorim e te digo que vai ser no final do ano de 2012. O fim de um tempo e o início de um outro.
    Haverá uma derrocada nos impérios europeus e americano incluso.
    O Brasil irá sofrer pois não terá em determinado momento quem poderá comprar seus produtos.
    Quando se fala em Apocalipse, espera-se o fim do mundo…!!! Pois o Apocalipse se dará com o fim do atual sistema monetário internacional em 2012…!!!.

    As grandes economias estão podres e apodrecendo rápidamente. É óbvio que começará um novo regime econômico global em que o Brasil será um dos mais beneficiados.
    O Cenário nos será favorável,pois somos grandes produtores de comodities, embora possamos passar por algumas “marolinhas”… É necessário um controle rigoroso do governo brasileiro em não aceitar negociações de empresas brasileiras em trocas dessas moedas,notadamente com a china.

    Os chineses estão desesperados, Seus cofres estão cheios de papel pintado de dólares e euros e títulos com rentabilidade próxima de zero e atualmente estão tentando
    se livrar da moeda americana e comprando tudo o que podem em diversos países do mundo (terras, mineradoras, participações em empresas petrolíferas etc… e tal.

    Quem viver verá !!!



    Fernando disse:
    13 de janeiro de 2012 às 9:25

    Reproduzo aqui o artigo escrito pelo sociólogo alemão Robert Kurz no longíquo 1996, que já previa tudo isso.
    “Porque a União Européia pode se tornar uma ‘ruína` nova em folha: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz13.htm



    Luiz Gustavo disse:
    1 de março de 2013 às 18:12

    É aquilo que sempre falo…a chamada ‘Europa germânica’ não irá topar sustentar a ‘Europa latina’…



    Amanda disse:
    17 de dezembro de 2015 às 12:35

    O incrível é que a crise em todos os países passa, menos no Brasil! Fico imaginando onde vamos chegar… É triste.



    Marco disse:
    27 de junho de 2016 às 12:01

    Acho inacreditável como estes países com todas estas crises sucessivas conseguem se re-erguer e nós continuamos no buraco.



    28 de fevereiro de 2017 às 23:06

    Concordo contigo Marco. Mas acho que não saimos do buraco é por causa da corrupção mesmo



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