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Interdependência ou morte.

postado em Artigos


Revista IstoÉ

15/09/2011

Por Ricardo Amorim

 

Interdependência ou morte

 

Chegou a hora da verdade na Europa. Como venho alertando nos dois últimos anos, o projeto da Zona do Euro, como inicialmente concebido, é insustentável.

A União Europeia nasceu com o objetivo de integrar diversos países, tornando-os mutuamente dependentes, reduzindo assim riscos de conflitos entre eles, inclusive bélicos.

 

Infelizmente, em seu formato atual, a coesão não é suficiente para atingir esta meta. Pelo contrário. Hoje, um mix de interdependência monetária e cambial e completa independência fiscal está exacerbando as tensões políticas entre os países da zona do euro.

Muito em breve, a Europa terá de decidir entre mais coesão, perda de autonomia nacional ou, o caminho oposto, revertendo seu projeto mais ambicioso e seu mais importante instrumento de integração, a moeda comum, com a saída de um ou vários países da zona do euro.

 

Mais integração exige a adoção de medidas politicamente impopulares tanto pelos países em situação financeira frágil, como pelos que atuariam como âncora da Europa unida.

Por um lado, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália teriam que abrir mão de boa parte de sua soberania fiscal para a União Europeia. Quer um paralelo? Imagine que, em meio a uma crise no Brasil, fossem anunciados a criação de novos impostos, o aumento de idade de aposentadoria e o fechamento de hospitais por decisão do governo do Mercosul.

 

Por outro lado, a Alemanha teria que financiar uma enorme expansão dos recursos do fundo de resgate europeu e a criação de “bônus europeus” que transferem a todos os membros da zona do euro a responsabilidade pela dívida de cada um deles e aceitar a emissão de euros pelo Banco Central Europeu para compra de títulos de países em dificuldades – o que causará desvalorização da moeda e aceleração da inflação. Consegue imaginar o Brasil aceitando a volta da inflação para ajudar a Argentina ou se responsabilizando pela dívida do Paraguai?

A Europa terá de decidir se quer e se consegue avançar na integração. Sem isso, calotes soberanos e uma nova crise econômica global são inevitáveis. Ambas alternativas são difíceis e dolorosas. Não existe a opção do status quo.

Além de seus impactos sobre as perspectivas de crescimento global no próximo ano, a decisão europeia será fundamental para definir todo arcabouço da economia mundial na próxima década.

 

Se optar pela integração, para ter sucesso, a Europa terá de ser apoiada por organismos internacionais – cuja própria sobrevivência dependerá de sua capacidade de apoio e de cobrança de medidas duras – e, principalmente, pelos novos donos do dinheiro no mundo, os países emergentes, capitaneados pela China. Para isso, europeus, americanos e japoneses terão de reconhecer, formalmente, sua atual dependência financeira de países historicamente periféricos e realizar uma enorme transferência de poder para eles nos organismos multilaterais.

Se todos não formos capazes de darmos passos tão grandes, o processo de desintegração econômica e recessão na Europa pode virar a semente de movimentos protecionistas que revertam a globalização das últimas décadas, podendo, no limite, colocar em risco o próprio sistema capitalista.

 

Ricardo Amorim

Economista, apresentador do programa Manhattan Connection da Globonews e presidente da Ricam Consultoria





    Ana Cristina Burjack disse:
    17 de setembro de 2011 às 10:31

    “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Qualquer uma das opções que a Europa escolher, terá o seu preço, as suas perdas. Não será fácil.



    igor cornelsen disse:
    19 de setembro de 2011 às 8:29

    Caro Ricardo
    Veja a posição do partido liberal, da coalisão da Angela Merkel, nas eleições de Berlin, e suas consequências, nesta notícia da Reuters.
    A impressão que tinha é que ser anti Europa na Alemanha seria mais popular.

    ATUALIZA-Merkel e aliados são derrotados em Berlim – RTRS
    18-Sep-2011 16:10
    Por Erik Kirschbaum e Stephen Brown
    BERLIM (Reuters) – O Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD, na sigla em alemão) derrotou os conservadores de Angela Merkel em uma eleição regional em Berlim, neste domingo. Foi a sexta derrota neste ano da chanceler, pouco antes da importante votação da zona do euro no Parlamento, que ocorre em duas semanas.
    A coalizão de centro-direita de Merkel sofreu um revés ainda pior, porque seus aliados da coalizão a nível nacional, o Partido Democrático Liberal (FDP, na sigla em alemão), não conseguiram alcançar os cinco por cento necessários para obterem assentos, pela quinta vez este ano.
    O FDP, que tinha tentado atrair eleitores em Berlim com a suas táticas cada vez mais céticas sobre as questões da zona do euro, caiu para 2 por cento em relação aos 7,6 por cento de 2006, mostraram pesquisas de boca de urna.
    Essa queda podedesestabilizar a coalizão de centro-direita de Merkel, segundo analistas.
    A chanceler alemã, que vem sendo criticada por sua liderança hesitante na crise zona do euro, está na metade de seu mandato de quatro anos. Mas as derrotas eleitorais de seu partido, o União Democrata-Cristã (CDU, em alemão), prejudicaram sua posição antes da votação sobre as medidas da zona do euro no Parlamento, em 29 de setembro.
    “Vamos ser sábios e demonstar humildade com este resultado” disse o visivelmente atordoado vice-líder do FDP, Christian Lindner. “É um momento difícil, mas também um alerta. Sabíamos que ia ser um ano difícil e isso foi evidentemente confirmado.”
    O SPD conquistou 29,5 por cento dos votos em Berlim, menos que os 30,8 por cento de 2006, na maior cidade da Alemanha, que tem 3,4 milhões de habitantes, de acordo com uma pesquisa do canal de televisão ARD.
    O presidente do SPD, Klaus Wowereit, deverá vencer as eleições para seu terceiro mandato de cinco anos, com o Partido Verde como seu parceiro de coligação mais provável.
    “A melhor parte do resultado desta noite é que os eleitores mostraram que o FDP não vai chegar a lugar nenhum com ataques populistas contra a Europa”, disse o líder do SPD, Sigmar Gabriel, comemorando a sexta vitória do seu partido de centro-esquerda em sete eleições regionais neste ano.
    “Isso mostra que os eleitores são mais inteligentes do que os estrategistas de campanha do FDP e que não se pode vencer uma eleição fazendo campanha contra a Europa. O FDP tentou e fracassou.”
    A CDU obteve 23,5 por cento dos votos, ligeiramente acima dos 21,3 por cento em 2006, mas bem abaixo dos 40 por cento que o partido costumava obter em Berlim nas décadas de 1980 e 1990. Os Verdes ficaram com 18 por cento, acima dos 13,1 por cento em 2006, e o partido A Esquerda caiu para 11,5 por cento, ante 13,4 por cento.

    Pelo jeito a Europa precisa de novas eleições para tomar jeito.
    As ameaças de “burden sharing” e “haircuts” que os governantes alemães tiveram nos últimos anos talvez tenham exacerbado a crise.

    Atenciosamente,

    Igor Cornelsen



    19 de setembro de 2011 às 9:00

    Bom dia Ilmo. Sr. Ricardo Amorim,

    Acompanho sempre suas publicações e não poderia de deixar de parabenizá-lo pelas acertivas e esclarecedoras colocações quanto as questões políticas e econômicas da comunidade europeia (mundial), visto tais interesses afetarem importantemente as demais economias do mundo.

    Atenciosamente,

    Marcos Antonio da Silva
    11-9215-7422



    19 de setembro de 2011 às 9:02

    Será que veremos a teoria de Adam Smith ao contrário? A Teoria da Pobreza das Nações?



    19 de setembro de 2011 às 9:03

    Ricardo conforme falei no comentário anterior, corroboro com o seu comentário acima. A Europa, assim como os EEUU terão que reconhecer a pobreza e Estados “emregentes” deverão crescer à luz de uma mudança na ordem economica global. Como EEUU e Europa representam o consumo e como estes serão empobrecidos, teremos um reordenamento para baixo na riqueza das nações. Será que veremos a teoria de Adam Smith ao contrário a Teoria da Pobreza das Nacões?



    Luiz Alexandre Deutsch disse:
    19 de setembro de 2011 às 9:42

    Ricardo,
    Concordo plenamente.

    No meu entender você poderia acrescentar facilmente a este seu ártico:
    Diferença linguística e de mentalidade, e o abismo de diferença entre PIB dos paises.
    Abraços



    Arthur Rodrigues Schmidt disse:
    19 de setembro de 2011 às 11:14

    Concordo plenamente. O grande problema,acredito,foi o acréscimo de um membro que gerencia a economia com políticas esquerdistas (Grécia!!!!). O capitalismo terá de salvar um país dos danos causados pelo socialismo. Ao invés de provar que o capitalismo é o causador de todos os problemas, isso prova (mais uma vez????) que o socialismo liderado pela esquerda não funciona e,em muitos casos,destrói países interios.



    Márcio Barbado disse:
    19 de setembro de 2011 às 12:15

    Ola Ricardo.
    O deslocamento do capital produtivo para países asiáticos destrui a economia interna dos paises europeus e Est.Unidos. O retorno deste capital para fortalecer a economia interna, gerando emprego e renda, é lento e enquanto isso não acontecer……….Abç



    Tiago Dumont de Rezende disse:
    19 de setembro de 2011 às 13:23

    Caro Ricardo,

    Achei interessante sua análise, porém acho que outros pontos teriam que ser levados em consideração:

    1) Para os Estados Unidos, uma solução para o problema Europeu é importante para a recuperação da economia mundial devido a atual fragilidade da economia americana, mas acho difícil eles abrirem mão de qualquer vantagem, como o atual controle das organizações multilaterais para ajudá-los (dando mais poder para os países emergentes como você sugeriu). É importante lembrar que para os Estados Unidos, a queda da União Européia pode ser a queda de um grande competidor de longo prazo. A criação do NAFTA foi uma resposta a criação da União Européia. Se não fosse o fato da China estar em evidência econômica atualmente, eu diria que a queda da União Européia para os EUA, em termos econômicos de longo prazo, seria o equivalente a queda da União Soviética em termos militares no fim da Guerra Fria. Ou seja, o fim do seu maior adversário.
    2) A Alemanha tem sido o país que mais se beneficia do Euro. Com uma economia voltada toda para a exportação, o valor do cambio é extremamente importante. O Euro é hoje muito mais desvalorizado do que seria o Marco alemão. Isto quer dizer que estes países todos que agora estão com problemas, na verdade ajudam a Alemanha a exportar com um cambio desvalorizado. Uma desintegração do Euro, mesmo parcial, seria igual a uma valorização cambial para os alemães. Parece “difícil” para os alemães aceitarem bancar os países com problemas financeiros, mas a alternativa de um Euro muito mais forte (ou até a volta ao Marco) pode sair muito mais caro para eles.
    3) Finalmente, aqui nos EUA, ainda não se chegou a uma conclusão se os efeitos da globalização dos últimos anos foram bons ou não para o país. Isto faz parte do debate político atual, principalmente no que diz respeito ao desemprego. Se uma onda de protecionismo tomasse conta do mundo, o maior perdedor seria possivelmente a China que é o maior exportador do mundo atual (uma crise na China também afetaria o Brasil). A conseqüência disto, mais uma vez, poderia ser o fortalecimento econômico de longo prazo dos EUA, não em termos absolutos, mas relativos. A Rússia, hoje o segundo maior exportador de petróleo, ou seja, também depende da saúde financeira dos chineses ou europeus. Me parece que os emergentes tem muito mais a perder, não ajudando para uma solução na Europa, do que parece em um primeiro momento.



    19 de setembro de 2011 às 18:08

    Seria um equívoco afirmar que estamos muito próximos de uma forte alta da moeda americana? Algo entre R$ 2,50 e R$ 3,00 dentro dos próximos 90 dias com consequentes pressões inflacionárias por aqui e abrupta queda das bolsas mundiais?



    MARCOS AURELIO DOS SANTOS disse:
    22 de setembro de 2011 às 15:34

    Prezado Ricardo
    Tendo acompanhado seus artigos e sempre mencionas a desvalorização do dolar em face dos percalços da economia dos USA, e agora, a posição se inverteu relação ao real, mesmo continuando a mesma indefinição.



    Roseli Turini disse:
    12 de outubro de 2011 às 20:07

    Olá Ricardo,

    Excelente artigo, como sempre! Parabéns!

    Resta saber se, como você diz, “europeus, americanos e japoneses serão capazes de reconhecer, formalmente, sua atual dependência financeira de países historicamente periféricos e realizar uma enorme transferência de poder para eles nos organismos multilaterais”

    Será que a necessidade vencerá o orgulho?

    De qualquer forma a situação é delicada e todos dependem de todos.

    Grande abraço



    15 de outubro de 2011 às 22:31

    Sucessos e fracassos … o que vêm por aí
    por Ivo Pires de Albuquerque Junior, quarta, 5 de outubro de 2011 às 18:07

    A ação a ser tomada agora : “preparar-se para a queda”.

    É assim que o ministro das Finanças da Grécia, Evangelos Venizelos, caracteriza o sentimento de uma nação após revisar para baixo a previsão de déficit orçamentário. O déficit, que era um 7,6% do PIB total para o ano fiscal 2011-12, agora já é de até 8,5% pelo menos até uma nova avaliação.

    O governo grego, na verdade, não está sozinho nestes “ajustes”. Muitos governos ao redor do mundo estão tentando ficar otimistas mas o crescimento econômico os tem forçado a não ficar. Não surpreendentemente, os mercados acionários ao redor do mundo foram (e estão) sendo submetidos aos ajustes.

    Vários fatores são responsáveis por trazer o crescimento global ao nível atual.

    Mas a crise da dívida soberana na Europa está certamente no topo da lista. Esta crise em curso não se limita a representar um perigo claro e presente para os países mais endividados da Europa, ou para as instituições bancárias mais expostas da Europa, a crise também ameaça destruir o próprio euro.

    O euro enfim, é produto da emissão de uma confederação de Estados. As forças centrífugas na Europa estão a (re)forçar a pressão sobre a Grécia, e estas forças estão além da capacidade dos governos de suportá-las.

    O euro vai quebrar. O simples fato de o euro enfrentar uma possível extinção é suficiente para lançar um ponto de interrogação sobre muitas partes da economia global.

    Será o “default” da Grécia? E Portugal, vem a seguir? E o que dizer de Espanha e Itália? Pode o “experimento” euro sobreviver ao várias dívidas soberanas? A Grécia pode sobreviver mesmo declarando-se “falida” ?

    Estas são perguntas que promovem a incerteza generalizada na Europa, ansiedade generalizada nos mercados financeiros globais e paralisia na economia global.

    Os líderes da União Européia acreditam que podem restaurar a ordem ao caos, tomando medidas que nunca adotaram : colocar dinheiro em causas perdidas,

    forçar nações a aumentar impostos de modo a alimentar profundas recessões,

    impedir o processo de falência e liquidação adotando a recapitalização de agentes econômicos “deficitários”.

    Essas táticas provavelmente não vão funcionar, pois vão apenas evitar o inevitável. Se a União Européia deseja salvar o euro, deve perder a Grécia. E mesmo assim, pode ser tarde demais para salvar o euro. Mas isso pode não ser tão ruim assim. Suíça e Noruega parecem estar indo bem, mesmo sem o euro. Em outras palavras, a angústia crescente do setor financeiro finanças na Europa “pode ser fatal, mas não é sério”, como alguns indicam.

    A Grécia é uma causa perdida … Isso saiu em jornais lá fora ontem. Nenhuma quantidade de medidas de austeridade vai fazer com que a Grécia cumpra suas metas fiscais, Atenas está em um círculo vicioso que constitui uma grave ameaça para a zona do euro. Chegou a hora …. a hora para os dirigentes políticos europeus estabelecerem a prioridade. A tarefa agora não é salvar a Grécia, mas salvar a zona do euro. Talvez sim, e talvez o momento agora seja propício a que os formuladores de políticas parem com o “jogo político” e acabem com esse negócio de resgatar a Grécia. Talvez (… talvez ?) prefiram deixar o capitalismo fazer seu trabalho sujo. Infelizmente, é assim que o “capitalismo bem-sucedido” é.

    O capitalismo não se baseia apenas em “sucessos”. É também baseado em “fracassos” – e cabe aos que os sofrerem saber reconhecê-los, lidar com os mesmos, e … expurgá-los.

    As falências serão uma saída que certas economias terão que considerar no longo prazo. A parte destrutiva de um processo de falência desempenha um papel vital e terapêutico. Mas os líderes da zona do euro claramente não têm fôlego para tanto … ao invés disso, a “farsa criativa” é a nova ordem do dia.

    Pessoas que gastam muito mais dinheiro do que ganham não devem viver felizes para sempre, pelo menos não imediatamente, e nem são as pessoas que emprestou todo o dinheiro para as pessoas que gastaram. Essa história não parece certa. É uma sensação artificial.

    E é como em um livro. No capítulo “Felicidade”, normalmente, as pessoas que gastam muito mais dinheiro do que ganham vivem felizes no aqui e no agora … até que o dinheiro emprestado se esgota. Depois disso, as pessoas não tão felizes estarão. O próximo capítulo do livro se chama “Falência”.

    A liderança da União Européia está tentando rasgar esse capítulo do livro.

    Má idéia.



    Ana Cristina Burjack disse:
    26 de maio de 2012 às 22:06

    Atualissimo o seu artigo, Ricardo claro, cristalino parabéns pela assertividade.



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