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El Niño, salvando a lavoura

postado em Artigos


08/2014

FMC Square

 
Desde a virada do milênio, o agronegócio brasileiro cresceu e apareceu. Impulsionado pela forte expansão de demanda vinda da China, grandes ganhos de produtividade e exploração de novas fronteiras agrícolas, alcançamos resultados que há uma década seriam impensáveis. Ultrapassar os EUA em exportações de soja ou ver a segunda safra de milho, até hoje chamada de safrinha, superar a primeira, por exemplo, pareciam meros devaneios há menos de dez anos.
 
Por outro lado, se a expansão do agronegócio brasileiro impressiona, a volatilidade de preços de que o setor tem sido vítima não fica para trás. As principais culturas brasileiras experimentaram, em intervalos de tempo excepcionalmente curtos, preços muito elevados e seguidos de preços muito baixos e vice-versa.
 
A expansão sustentada da demanda chinesa e, em menor grau indiana, por alimentos tem exercido e continuará a exercer uma pressão altista sobre os preços, mas fortes oscilações climáticas e da economia global ainda causarão fortes agitações dos preços.
 
Atualmente, há dois importantes riscos baixistas de preços de commodities em geral para os próximos 18 meses: um eventual estouro da bolha imobiliária e de crédito na China ou da bolha acionária nos EUA. Nos dois casos, os preços em dólares dos grãos e demais commodities sofreriam quedas muito significativas, que seriam apenas parcialmente compensadas por uma alta também bastante grande do dólar.
 
Nas duas últimas vezes em que crises financeiras aconteceram, as quedas de preços foram brutais. No final de 2008, quando a crise imobiliária americana causou a crise financeira global, os preços de commodities em geral, medidos pelo índice CRB, caíram 50%. Em 2011, a crise europeia e uma decepção com o crescimento nos EUA foram o gatilho que levou os especuladores a reduzirem suas posições compradas em commodities, causando uma queda de 28% do índice CRB.
 
Felizmente, nem tudo são más notícias para os produtores rurais brasileiros. Institutos metereológicos de todo o mundo atribuem uma probabilidade de mais de 70% de ocorrência do fenômeno El Niño entre novembro deste ano e janeiro do ano que vem. Em média, nas últimas quatro vezes em que o fenômeno ocorreu – com início em maio de 2002, julho de 2004, setembro de 2006 e julho de 2009 – os preços das commodities agrícolas cotadas em dólar subiu bastante. A alta média foi de 20,2% nos 8 meses anteriores ao início do fenômeno – à medida que especuladores compravam contratos futuros de commodities agrícolas, antecipando seus efeitos nos preços – e de mais 24,4% nos 12 meses subsequentes, com um ganho total de 49,5%.
 
Por outro lado, o Real se fortaleceu em relação ao dólar em média 5% nos 8 meses anteriores ao início do fenômeno e 10,1% nos 12 meses seguintes, reduzindo os ganhos dos produtores em moeda local. Entretanto, como a alta dos preços em dólares foi bem maior do que a queda da cotação do dólar, ainda houve ganhos expressivos de preços para os produtores em moeda local – de 14,5% nos 8 meses anteriores e de mais 13% nos 12 meses posteriores, totalizando 29,3% ao longo de 20 meses.
 
O impacto nos preços, entretanto, não é linear em diferentes culturas e em diferentes regiões. O El Niño é um aquecimento prolongado da superfície do Oceano Pacífico em pelo menos 0,5ºC. Normalmente, ele tem duração de nove meses a dois anos e causa um aumento significativo das chuvas nas costas ao norte do Peru e Equador de abril a outubro e no norte da Argentina e sul do Brasil na primavera e verão. Além disso, no Brasil, ele costuma causar secas severas em partes da região norte, elevação da temperatura no Centro-Oeste e redução das chuvas na época chuvosa no nordeste.
 
No caso brasileiro, neste ano, além dos impactos sobre preços agrícolas, o fenômeno adquire importância adicional porque sem ele o risco de racionamento de energia elétrica nas regiões sul e sudeste no ano que vem seria muito significativo.
 
No caso dos produtos agrícolas, o El Niño costuma causar uma redução da produção global de trigo, arroz e milho, impactando safras na América Latina, EUA, Austrália, sudeste asiático, China e até na Espanha.
 
No caso do milho, por exemplo, cerca de ¼ da produção mundial – nos EUA, México e China e Espanha – costuma ter queda de produtividade. Além disso, no outono no Hemisfério Norte, chuvas maiores do que o usual costumam causar atraso nas safras de verão de milho e algodão. Neste ano, no caso específico da Califórnia, que teve problemas de seca nos últimos 3 anos, o aumento de chuvas por conta do El Niño pode até beneficiar a produção, mas como o pico de aumento de chuvas só deve ocorrer próximo ao final deste ano, o aumento de chuvas só deve beneficiar a safra colhida em 2015.
 
No caso da soja, o impacto na produção global costuma ser o inverso, com aumento médio de 3,7%, como resultado de um aumento de produtividade em 37% da área plantada, principalmente no Brasil, Argentina e EUA mais do que compensado um impacto negativo grande em 9% da área plantada, na Índia e em partes da China.
 
Em resumo, caso se materializem, choques financeiros poderiam causar quedas fortes de preços das commodities agrícolas no final deste ano ou no ano que vem, mas por outro lado, se não se materializarem, o El Niño, tem uma probabilidade grande de ocorrer, deve causar altas dos preços agrícolas. Nesta queda de braço entre pressões baixistas e altistas, a volatilidade de preços agrícolas no restante deste ano e no próximo deve ser bastante grande. Prepare-se enquanto é tempo.
 
Ricardo Amorim é economista, consultor, apresentador do programa Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ e presidente da Ricam Consultoria. Realiza palestras em todo mundo sobre perspectivas econômicas e oportunidades de negócios. Único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do site inglês Speakers Corner e economista mais influente do Brasil segundo o site americano Klout.com.
 
 





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