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Sem medo de ser feliz.

postado em Artigos


Revista IstoÉ

01/04/2010

Sem medo de ser feliz

Por que poucos brasileiros conseguem acreditar que a economia do Brasil é hoje uma das mais sólidas do mundo?

Era uma vez um menino franzino que, desde o jardim da infância, se acostumou a ser o saco de pancadas na escola. Era só o clima esquentar e os grandalhões partiam para cima dele. Assim, ele acabou se acostumando ao seu destino.
De repente, sem que ninguém soubesse como nem por quê, houve uma longa temporada de calmaria na escola. Nada de brigas, só festa.
Como tudo que é bom um dia termina, a calmaria passou e os ânimos começaram a ferver novamente. O menino já foi se encolhendo, pronto para a tradicional surra. Sentia a dor antes mesmo que o tocassem. 

Desta vez, para sua imensa surpresa, ninguém quis se meter com ele. Os grandalhões até olharam para ele, mas preferiram bulir com outros grandões a se meter com ele. Nosso menino adorou, mas não entendeu o que acontecia e continua até hoje com medo que na próxima briga vá sobrar para ele, como no passado. 

Ele não percebeu é que, durante o período de tranquilidade, sua madrasta o havia alimentado de forma especialmente nutritiva, o que, somado aos exercícios que ele vinha fazendo há tempos, o deixara forte e musculoso. Enquanto isso, os grandalhões, depois de muito tempo desfrutando do poder que tinham na escola, ficaram acomodados, preguiçosos, engordaram e perderam agilidade.
Este menino se chama Brasil. Sua madrasta tem nome, China. Sua alimentação foram as exportações; os exercícios, a estabilização da economia e ajustes fiscais posteriores ao Plano Real. Os grandalhões são os países ricos e, como você já deve imaginar, as brigas nesta
escola chamada mundo são as crises econômicas. 

Com superávit comercial, reservas internacionais superiores a US$ 200 bilhões, um dos menores déficits fiscais do planeta e sem bolha imobiliária, excesso de consumo ou fragilidades latentes em seu setor financeiro, o Brasil tem hoje uma das economias mais sólidas do mundo. O interessante é que poucos brasileiros conseguem acreditar nisso. 

Duas décadas e meia de péssimo desempenho econômico entre o final dos anos 1970 e 2003, quando o crescimento médio da economia brasileira não passou de ínfimos 2,3% ao ano, transformaram o país do futuro no país da descrença. A geração perdida – afinal, 25 anos correspondem a toda uma geração, não apenas a uma década, como costumamos nos referir à década de 1980 – deixou de ter a capacidade de acreditar que o país possa dar certo. 

Sem perceber que a entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2001 alterou completamente a ordem econômica mundial a nosso favor – elevando a demanda e o preço das commodities que produzimos e exportamos e reduzindo a inflação e as taxas de juros mundiais, oferecendo-nos capital barato para financiarmos nosso crescimento –, não acreditamos que um país onde ainda reinam corrupção, má educação e infraestrutura sofrível possa dar certo. Esta descrença molda a economia brasileira e o perigo é se tornar uma profecia autorrealizável. Decisões econômicas de empresários e do governo têm sido pautadas pelo Brasil que não dá certo. 

Exemplo: toda a regulamentação cambial foi feita para evitar fuga de dólares do País em meio a crises, porém a situação que vivemos nos últimos anos é oposta:
abundância – segundo alguns, excesso – de divisas estrangeiras, e não falta delas.
Sorte não é destino. Claro que é preciso fazermos a nossa parte. Para começar, devemos perder o medo de ser felizes.





    14 de novembro de 2011 às 10:39

    Freud explica essa irracional atração pela morbidez. Não crescer, atribuindo erros a fatores alheios, é uma forma de comodismo.
    Porém, do ponto de vista da macroeconomia, que é sempre decorrente de desejos, seria um exercício de pura morbidez elencar interesses em manter um país na m.e.r.da.



    Marcio Prado disse:
    14 de novembro de 2011 às 14:34

    Essa descrença se mostra de dicersas formas: falta de confiança nos fornecedores(desde pequenos a grandes), ignorância jurídica dos tomadores de decisão(desde o chão de fábrica até a cúpula das empresas) que se reflete em demora ao tomar decisões(por despreparo profissional), o que atrasa as transações e diminui o faturamento de todo o país.A mais inteligente medida que ví até agora foi de Portugal, de cortar 4 feriados.



    Ricardo Carelli Fontes disse:
    14 de novembro de 2011 às 19:26

    Extraordinaria metafora, que mostra o efeito inercial de complexos historicos que precisamos
    aprender a vencer. Voce acabou de criar uma nova analise psico socio economica, a nova disciplina, q podemos chamar de psicoeconomia. Abracao !



    Pedro Frascino disse:
    16 de novembro de 2011 às 8:53

    De fato vivemos um momento único em nossa economia, favorecidos pelos fatores mencionados e outros mais, até pela nossa distribuição demográfica. Porém temos também o mais baixo investimento nos fundamentos de uma economia sustentável: educação, infraestrutura, saúde e capacidade política para transformar este momento em algo perene. Grande parte da nossa síndrome decorre desta pequenez de nosso governantes, que pensam simplemesmente explorar e não construir, cmportando-se como se donos fossem de capitanias hereditárias, exportando nosso ouro e pau-brasil.



    stalin passos disse:
    7 de julho de 2014 às 18:48

    Muitas mudanças de 2010 para cá!Hj o dragão da inflação está despertando; os preços administrados estão comprimidos; o governo tornou-se opaco e a corrupção virou moeda de troco….tempo na tv vira ministério….q vergonha!!!!



    João Claudio Silva disse:
    4 de agosto de 2014 às 17:17

    Ótimo, também acredito que estamos vivendo em tempos melhores do que 10 anos atras, nunca tivemos tanta carne em nossa mesa e qualidade de vida da qual estamos presenciando agora neste momento, mas precisamos de mudanças e acredito que a principal seria a reformulação fiscal de nosso país, onde ficamos dando murro em ponta de faca sem nenhum resultado, Ricardo você é uma inspiração para nós jovem, muito obrigado em compartilhar seus conhecimentos, um grande abraço .



    28 de fevereiro de 2017 às 23:09

    Interessante ver essa notícia de 2014 e ver hoje em dia como a nossa economia está.
    Espera que consigamos sair logo dessa situação



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