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Entrevista de Ricardo Amorim sobre o cenário econômico pós-eleitoral

postado em Entrevistas


10/2014

Yokohama

 

– O que esperar para o Brasil em 2015?

Infelizmente, 2015 deve ser mais um ano difícil. A inflação não está apenas mais elevada, está grávida. O dragãozinho dos preços controlados pelo governo nasce agora, após as eleições. Há mais de um ano, os preços de ônibus, metrô, gasolina, energia elétrica e outros têm sido represados para conter a inflação e as manifestações de rua. Estes preços terão de ser realinhados para evitar o colapso dos serviços e contas públicas.
Só a diferença entre o preço internacional do petróleo e os preços nacionais de seus derivados custava à Petrobrás mais de R$ 40 bilhões anuais antes da queda recente dos preços do petróleo no mercado internacional. A utilização de usinas termoelétricas para geração de energia elétrica custará de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões só neste ano, e mais ainda em 2015. A renúncia fiscal com a desoneração de salários custará mais R$ 24 bilhões só em 2014. O ajuste das contas públicas é inevitável. Ele virá através de elevação de preços, corte de gastos do governo ou aumento de impostos, provavelmente os três.
Os reajustes pressionarão a inflação, forçando o Banco Central a aumentar ainda mais os juros, que já estão no nível mais alto desde 2011, limitando o crédito e reduzindo o crescimento econômico. Aumentos de impostos e redução de gastos do governo devem retirar dinheiro da economia em 2015, também limitando o crescimento.

Se arrumarmos a casa em 2015, retomando a confiança de empresários e consumidores, podemos retomar um ciclo de crescimento mais acelerado a partir do final do ano que vem. Isto dependerá das medidas econômicas adotadas até lá e da definição da equipe econômica do próximo governo.

 

– O que o setor automobilístico deve esperar?

Um cenário ainda difícil no começo do ano em função de um provável novo aumento da taxa de juros, o que limitará a expansão do crédito, seguido de uma provável melhora ao longo do ano à medida que a confiança do consumidor se recupere.

 

– Quais os desafios para o novo governo?

O principal é retomar a confiança de empresários e consumidores – sem o que não há expansão de investimentos e consumo.

 

– Fórmulas mágicas não existem, mas existe um modelo que seria o mais correto a ser adotado no Brasil para ele recuperar os números positivos de alguns anos atrás?

Nosso modelo de desenvolvimento está esgotado e precisa ser mudado. Nos últimos anos, o crescimento brasileiro baseou-se no crescimento da classe média e seu potencial de consumo. A expansão do consumo de massas em si é muito benéfica em termos econômicos e sociais. O problema é que ela não pode ser a única base de crescimento do país e tem sido. Se um país só estimula o consumo e não estimula a produção, acaba acontecendo um desequilíbrio entre forte crescimento da procura por produtos e serviços e crescimento menor da oferta destes produtos e serviços. O resultado é menor crescimento econômico, pressão inflacionária e piora da balança comercial devido a forte aumento das importações. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil.

Infelizmente, desde 2011, o crescimento econômico tem decepcionado ano após ano e neste ano não tem sido diferente. Há um ano e meio, a maioria dos analistas acreditava que o PIB poderia crescer pelo menos 4% neste ano. A estas alturas, sabe-se que o crescimento será nulo. Na economia, o vexame tem sido pior do que foi na Copa. O Brasil está tomando de 7 a 0, neste ano. A inflação está em quase 7% e o crescimento do PIB será próximo de 0%.

É inevitável uma mudança do modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, favorecendo a produção, independentemente de quem ganhar as eleições. A própria presidente Dilma já reconheceu a necessidade de mudança. Na prática, isto significa que o próximo governo deveria estar focado em reduzir a carga e simplificar a legislação tributária, reformar nossas leis trabalhistas, melhorar nosso ambiente de negócios, reduzindo burocracia e estimulando investimentos privados, aumentar os investimentos em infraestrutura e melhorar a qualidade da educação. Para que tudo isso seja possível, o governo deveria cortar seus gastos para liberar recursos.

Dois fatores que permitiram que o Brasil avançasse 2,5 vezes mais rápido entre 2004 e 2010 do que antes se esgotaram: incorporação de mão de obra e maior utilização da infraestrutura já existente. Desde 2003, quase 20 milhões de brasileiros sem emprego passaram a trabalhar, colaborando com a produção. O desemprego caiu de 12% para 5%. Não cairá mais. Aliás, o total de empregos nas principais capitais é que vem caindo ao longo deste ano.
Isto significa que só poderíamos crescer como antes acelerando a produtividade, o que exigiria trabalhadores melhor preparados e equipados. Isto exige muito investimento em educação e treinamento, mas também em máquinas, equipamentos e tecnologia.

Para retomarmos a competividade, e sustentarmos um crescimento mais rápido, só investindo muito em qualificação de mão de obra, máquinas, equipamentos e infraestrutura. A China, que cresce 3 a 4 vezes mais rápido que o Brasil, investe em sua infraestrutura, a cada ano, o equivalente a todo o estoque de infraestrutura existente no Brasil.

A produtividade média do trabalhador americano é hoje 5 vezes a do trabalhador brasileiro. Em outras palavras, para executar a mesma função, você pode contratar um americano ou 5 brasileiros. A razão mais óbvia para isso é a melhor qualidade da educação por lá, mas tão importante quanto isso é o fato do trabalhador americano estar muito melhor equipado que o brasileiro. Para executar seu trabalho, ele conta com uma série de ferramentas, máquinas, software e hardware que o brasileiro não conta. Mal comparando, um agricultor com um trator produz mais do que 5 vezes mais do que 5 trabalhadores cada um deles com uma enxada. Precisamos automatizar e mecanizar a economia brasileira, mas isto tem de acontecer em paralelo a um aumento da qualificação da mão de obra. Voltando ao meu exemplo, não basta apenas comprar um trator para um dos 5 trabalhadores que mencionei se ele não souber usar o trator.

Isto tudo não quer dizer que não haja oportunidades.  Por conta do mau desempenho econômico brasileiro recente, o pessimismo reina por aqui e quando o pessimismo reina, como hoje, a maioria se retrai, a concorrência diminui e as grandes chances aparecem. A mãe das oportunidades são os problemas. A lagarta não escolhe virar borboleta. Ela se transforma porque não tem escolha. Além disso, mesmo em uma economia que vai mal, há setores e regiões que prosperam.

 

Ricardo Amorim é apresentador do Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ, presidente da Ricam Consultoria, único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do Speakers Corner e economista mais influente do Brasil segundo a revista americana Forbes.

Perfil no Twitter: @ricamconsult.
 
 





    ROSANA DE CARVALHO SOUSA disse:
    28 de outubro de 2014 às 20:03

    Devo dizer ,felizmente, tudo aconteceu da forma que eu não queria ,porque agora vamos ter que ver “a boca do balão estourar” que é bem melhor” para que todos os erros sejam mostrados claramente.



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