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Ricardo Amorim aponta oportunidades e desafios para o RH das empresas na próxima década.

postado em Entrevistas


Revista Profissional e Negócios

Setembro/2011

De olho no futuro

O economista Ricardo Amorim fala das boas perspectivas para o Brasil nos próximos anos e comenta a reviravolta social e de classes que acontece no país.

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Amorim fez economia na USP, é pós-graduado em Administração e Finanças Internacionais pela ESSEC de Paris e atua no mercado financeiro desde 1992. É presidente da Ricam Consultoria e palestrante. Entre algumas de suas apresentações esteve ao lado de economistas ganhadores do Nobel, ministros de Estado e presidentes de bancos centrais. “Por sorte, tive experiências muito díspares. Primeiro eu trabalhei 20 anos no mercado financeiro e comecei a entender bem como funciona as interligações entre finanças e economia. Outra coisa é que eu passei recentemente dez anos nos EUA, e acompanhava a área de “mercados emergentes” no banco em que eu trabalhava. Também faz oito anos que eu trabalho no mercado de comunicação, no “Manhattam Connection”, do canal GNT, e tenho uma coluna na revista “Istoé” e na rádio Eldorado”, conta.

E ao contar essa sua trajetória profissional, ele dá algumas dicas para os profissionais de RH: “Esses três pilares me fizeram ver as coisas de uma forma distinta, e isso é algo que eu quero realçar para os profissionais de RH. Primeiro, valorizar quem tem óticas diferentes sobre as coisas, e em segundo lugar, valorizar quem tem experiências diferentes e complementares. Eu acredito que cada vez mais, aquele cara que é só muito especialista e não tem uma visão geral faz com que, muitas vezes, ele possa perder processos maiores e importantes e fazer a empresa morrer”.

 

profissional&negócios – Quais as perspectivas para a economia do Brasil em 2011 com a presidente Dilma?

Ricardo Amorim – Bom, a primeira coisa é despolitizar um pouco o tema, porque o que deve acontecer o ano que vem é muito mais em função do que já vinha sido feito e do que está acontecendo no mundo do que realmente em função de políticas da nova presidente. Eu acho que as perspectivas para o ano que vem, quer dizer, mais do que o ano que vem, para os próximos anos, são muito favoráveis, mas isso não tem a ver especificamente com a eleição da Dilma. Isso tem a ver com o fato de que, na realidade, aconteceram algumas mudanças na economia mundial que favoreceram o Brasil e uma das consequências em 2010, por exemplo, é: entre as 30 maiores economias do mundo, o Brasil foi o terceiro país que mais cresceu, só ficou atrás, por ordem, da China e da Índia.

 

p&n – Quais foram essas mudanças?

Amorim – Isso eu acho que é importante porque é basicamente o que vai ficar e é a razão de eu ser otimista não só para o ano que vem. Isso não quer dizer que todo ano será um ano bom, mas quer dizer que a gente está entrando em um período muito favorável. Na verdade, são três características principais, todas elas favoráveis ao Brasil, aliás, todas elas negativas para os países ricos, EUA, Europa e Japão e isso explica porque eles estão em crise hoje em dia e a coisa por aqui está boa, aliás, não só aqui, mas nos emergentes em geral. Não é exclusividade brasileira. A primeira coisa que aconteceu é que com a emergência da China e da Índia, e mais especificamente, com a entrada da China na OMC em 2001, a gente começou a mudar. Em primeiro lugar, o que é consumido no mundo, por quê? Os chineses e indianos são muito pobres e quando eles começam a ganhar um pouco melhor, a primeira coisa que eles fazem é comer mais e comer melhor, então, o Brasil se beneficia porque ele é um grande exportador de comida em geral. Além disso, esses países estão num processo de urbanização e industrialização, então, na Índia e na China as pessoas estão começando a sair do campo e ir para as cidades, para isso é necessário construir as cidades, ou seja, é preciso metais, minerais e o Brasil também é exportador desses produtos. Por exemplo, só de metrô, na China hoje tem 80 em construção e é por isso que a Vale vende minérios de ferro para eles que nem uma “maluca”. Bom, isso também beneficia o Brasil. E por que isso vai durar muito tempo? Porque hoje metade dos chineses e 60% dos indianos vivem em área rural, então significa que ainda tem muita gente para ir para as cidades e elas precisam ser construídas. Só para colocar em perspectiva, no Brasil, em 1950, metade da população vivia em área rural, quer dizer toda a urbanização brasileira nos últimos 60 anos nem começou na China e na Índia, então, tem muita coisa para acontecer. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que, quando a gente começa a exportar a produção de quase tudo para lugares que tem muita mão de obra, Índia, China e Brasil também, como o custo da mão de obra é mais baixo, o custo da produção de praticamente tudo começa a cair. E, com isso, a inflação no mundo também começou a cair nos últimos anos e, ela ficando mais baixa, permite que a taxa de juros, não só no Brasil, como no mundo inteiro, esteja nos níveis mais baixos da história. Para o Brasil, isso é ótimo, porque ele é importador de capital, o que isso significa: a gente precisa trazer dinheiro do resto do mundo para financiar investimento aqui e para financiar crédito para consumo. E isso ficou mais barato, então, o Brasil está importando a um preço mais barato. Os países ricos, que têm o capital, estão produzindo isso mais barato, está acontecendo a mesma coisa com os produtos que nós estamos exportando, que estão mais caros, eles estão pagando mais caro por eles. A última coisa que nos beneficia é o que tem a ver com RH, é gente. Uma das coisas que mudou é que o fluxo de cérebros no mundo passou a jogar a nosso favor e não contra. Antes o Brasil perdia boa parte dos seus profissionais mais bem formados porque eles iam estudar ou trabalhar e acabavam ficando nos EUA, Europa ou Japão, pois lá havia oportunidades melhores do que aqui. Mas hoje, o fluxo inverteu. Só de brasileiros, há 400 mil que voltaram desses países nos últimos seis anos. Eu conheço vários casos de gregos que estão vindo trabalhar aqui porque as oportunidades estão melhores. Eu vi uma pesquisa recente de um MBA de uma universidade americana que mostrava basicamente o seguinte: o pessoal que está se formando nos MBAs lá, hoje quer é ir trabalhar na China, Índia e Brasil. Isso é pesquisa com americanos, tchecos, russos, gente do mundo inteiro. Então, resumindo, a gente hoje está atraindo cérebros para cá.

 

p&n – Essa bipolaridade vivida pelo mundo deve continuar para os próximos anos?

Amorim – Ela veio para ficar, porque os fatores que geraram essa bipolaridade foram basicamente a emergência desses dois países, que são muito pobres e muito populosos, que são China e Índia. Por que essas economias são grandes? Basicamente porque tem muita gente. O que mudou foi que nós vivíamos em um mundo em que os países ricos tinham populações ricas, hoje os países ricos, os que estão se tornando as maiores economias do mundo têm populações pobres ou de renda média, caso do Brasil. E isso está mudando todo o mundo e veio para ficar, porque os fatores, mais uma vez, são esses processos de emergência que estão acontecendo nos BRICS e, ao mesmo tempo, existe um processo de decadência do rico que está associado a algumas coisas: em primeiro lugar, com essas que eu já mencionei, mas, além disso, um processo de envelhecimento da população. É o que está acontecendo por lá. A segunda coisa é que todos eles, principalmente os EUA, nos últimos 30 anos, passaram por um processo de cada vez mais ficarem endividados. Durante 30 anos, as famílias por lá, aproveitando que tinham crédito fácil, foram ficando cada vez mais endividadas. Em 2007, a gente viu a taxa de juros subindo nos EUA inicialmente e havia várias hipotecas cujas prestações variavam junto com a taxa de juros. Quando a taxa de juros aumentou, o valor das prestações aumentou também. E elas não tinham dinheiro para isso. Elas não pagaram, deram calote nas hipotecas e os bancos tomaram esses imóveis e colocaram esses imóveis à venda. Como aumentou muito o número de imóveis à venda, o preço despencou, quando isso ocorre, o que a gente tem é que, como nos bancos havia um monte de títulos que dependiam no mercado imobiliário, eles praticamente ficaram sem dinheiro para emprestar e cortaram o crédito de todo mundo. Ao fazerem isso, as pessoas não tinham mais como financiar os gastos, as empresas que dependiam muito de crédito para vender quebraram e os governos deles olharam para essa situação e “falaram”: “Olha, se eu não injetar dinheiro nesses setores que estão quebrados e, ao mesmo tempo, não olhar para esses consumidores que pararam de gastar a gente vai para a pior crise da história do capitalismo”. Foi o que eles fizeram. Traduzindo isso, até agora, eles não resolveram o problema original, que era excesso de dívida. Então, o mundo virou, quer dizer está vivendo uma bipolaridade que é a favor dos mais pobres contra os ricos, quer dizer, o mundo está ficando menos desigual e vai ficar nessa toada provavelmente por algumas décadas.

 

p&n – E como você vê esse possível retorno da CPMF com a Dilma? É uma boa solução para o país?

Amorim – Eu acho que a CPMF é uma fria. Se tem uma coisa que o Brasil tem demais é imposto. O que Dilma teria que fazer é cortar gastos para criar espaço para exatamente cortar impostos no Brasil e, além disso, para reduzir juros. O que acontece é que, quando o governo gasta ele coloca dinheiro na economia e estimula a atividade econômica, ou seja, quando ele gasta, o país cresce mais, mas a inflação começa a subir também. Se ele gastasse menos, a demanda do Brasil iria ficar mais fraca e a inflação mais baixa, isso iria abrir espaço para os juros caírem e compensarem a quebra de procura causada por gastos menores do governo. A gente ia ter juros mais baixos, gastos menores no governo e se ele gastasse menos, poderia cobrar menos impostos também, o que por sua vez, iria aumentar a competitividade das empresas brasileiras. Esse deveria ser o caminho, que é totalmente ao contrário da recriação de um velho imposto como o da CPMF.

 

p&n – E como você vê o sistema previdenciário brasileiro. E quais as perspectivas para os próximos anos?

Amorim – Em primeiro lugar, a previdência é um problema no mundo inteiro e isso por uma boa razão: a expectativa de vida vem aumentando muito e, por consenquência, as idades que foram definidas quando se criou o modelo de previdência estão gerando um desequilíbrio financeiro porque as pessoas estão vivendo mais. A ideia era que as pessoas se aposentassem com 65 anos e vivessem mais cinco. Só que hoje, elas vivem mais 20. O que é ótimo. O que significa que teremos que nos aposentar mais velhos e teremos que aceitar essa situação no Brasil e em todos os outros lugares. No caso específico brasileiro, a gente tem uma distorção que é só nossa. O Brasil é o único país do mundo cujo déficit de previdência do setor público é muito maior do que toda a iniciativa privada. E por que isso é uma loucura? Porque há 20 vezes mais profissionais da iniciativa privada. Então, é um absurdo. O que tinha que acontecer é um sistema único e não tem razão para ter sistemas diferenciados. Essa era a primeira coisa a ser feita e se fizesse só isso o que você pouparia só com isso é mais do que a CPMF arrecadava.

 

p&n – Você já falou um pouco sobre a crise e nesse período se viu o quão frágil estavam as políticas de remuneração de altos executivos. Você acredita que as organizações aprenderam com isso?

Amorim – Elas aprenderam que o problema existe, mas elas não acharam uma solução. E não existe uma solução óbvia. Na realidade, tem uma forma de se fazer isso. O que se criou nas empresas para alinhar os interesses delas com os dos funcionários? A remuneração variável, se a empresa ganha mais, os funcionários ganham mais. Mas isso acabou sendo abusado. As empresas começaram a criar uma série de instrumentos contábeis para mostrar resultados melhores e, dessa forma, os executivos, os funcionários em geral, teriam uma remuneração variável maior. A forma de se resolver isso é o seguinte: você cria essa remuneração variável que o funcionário recebe só que ele não pode sacá-la durante um determinado período. Então, por exemplo, digamos que os funcionários recebam ações da empresa quando ela tem um bom resultado só que eles só poderão pegar essas ações dali três, cinco anos. Isso significa que, se o que foi feito foi fraudulento e vai estourar lá na frente, ele não recebe isso, se não ele recebe o dinheiro. Isso faria com que os gestores, executivos, tivessem interesses mais em longo prazo.

 

p&n – Você acredita que as empresas têm um papel importante na educação financeira de seus funcionários? E como fazer isso de forma eficaz?

Amorim – Sim, elas têm isso por interesse próprio. O que mudou é que o país mudou e isso cria oportunidades e desafios. Uma das mudanças importantes é que praticamente não existia crédito no Brasil, era tão caro e tão pouco disponível que não existia. E, de repente, praticamente todo mundo tem acesso a ele. Então, a primeira coisa que as pessoas precisam aprender no Brasil é a usar bem o crédito e, se elas não usarem, pode acontecer o seguinte, se a empresa tem um funcionário que está endividado certamente ele não vai trabalhar tão bem, porque a cabeça dele está em outro lugar. A segunda coisa é que as empresas precisam se dedicar a ajudar as pessoas a aprenderam a pensar e a investir em longo prazo. Como o Brasil tinha uma situação instável, ninguém conseguia pensar muito além do amanhã e do depois de amanhã. Isso está deixando de ser verdade. E a outra coisa que está deixando de ser verdade, e vai continuar para os próximos anos, é que a taxa de juros no Brasil era muito alta, então, todo mundo colocava dinheiro investido em alguma aplicação de renda fixa e como a taxa de juros era alta estava para lá de bom, mas os juros já começaram a cair nos últimos anos e deve cair mais ao longo da próxima década. Com isso, as pessoas vão ter remuneração mais baixas nos investimentos e elas precisam começar a olhar para outras oportunidades, mercado acionário, imobiliário etc.

 

p&n – Você gostaria de deixar um recado para os profissionais de recursos humanos?

Amorim – Eu tenho um recado sim: o mundo mudou muito, mais do que pessoas e as próprias empresas perceberam. Quando eu estava falando daquela bipolaridade o que significa é o seguinte, o mundo que vamos viver daqui para frente não tem nada a ver com o mundo que a gente viveu nos últimos 30, 40, 50 anos. Se as empresas não tiverem profissionais que estão antenados para essas tendências, elas vão morrer. Então, a primeira coisa que eu acho fundamental é ensinar para os seus funcionários o que mudou. Quais são os riscos, as oportunidades que isso gera, o que está acontecendo, porque se elas não fizerem isso, aí vem a diferença entre a empresa que vai ser líder daqui um tempo e as que não vão nem existir. Esse é o ponto fundamental, por exemplo, o que está acontecendo, sustentabilidade é algo que tem muitos pilares, mas do ponto de vista econômico tem dois que são os mais importantes, o primeiro é social. Não existe sustentabilidade se você não tiver uma situação socialmente resolvida e aí tem uma boa notícia, se eu falei para você que os países que mais crescem são os mais pobres, dentro do Brasil o que está acontecendo é a mesma coisa, os Estados que mais crescem são os mais pobres, das regiões norte e nordeste. E as empresas que não estiverem atentas a isso vão tomar decisões erradas, vão perder dinheiro e não serão sustentáveis. Mas, a contrapartida que eu queria falar em relação a isso é o seguinte: se cada vez mais gente que antes não tinha acesso a consumo está começando a ter, só no Brasil, por exemplo, nos últimos sete anos, tem 50 milhões de pessoas que emergiram para as classes A, B e C, a tal da nova classe média, esse pessoal é mais do que a população da Espanha inteira. Se você tem mais gente consumindo significa também o seguinte: tem mais gente poluindo o mundo. Ecologia vai ficar cada vez mais importante e, sob esse aspecto, é outra coisa que as empresas têm que olhar.





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