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Entrevista de Ricardo Amorim sobre inovação, liderança e perspectivas para o varejo

postado em Entrevistas


07/2017

Supermercado Moderno

Por Alessandra Morita

 

Crédito: @panoptica.midia

 
“O cenário econômico mais complicado é difícil para todas as companhias. Não há como ser diferente. Mas as empresas que têm melhores produtos e serviços conseguem ter resultados melhores.” A afirmação feita a SM é do economista Ricardo Amorim, CEO da Ricam Consultoria e comentarista do programa de TV Manhattan Connection. Nesta entrevista, ele ressalta a importância de as empresas investirem em inovação de produtos e processos e fala sobre o novo papel das lideranças. A economia também foi tema da análise. Segundo Amorim, a atual instabilidade política dificulta traçar um cenário econômico para os próximos meses. Apesar disso, alguns indicadores tendem a ser favoráveis à economia e ao varejo, como a queda da inflação e o recuo da taxa de juros. Acompanhe a seguir.
 
Diante da instabilidade política, é possível prever algum cenário para a economia até o final de 2017?
 
O cenário econômico hoje está totalmente dependente do cenário político. Ele determinará se continuaremos a fortalecer os fundamentos da economia brasileira, com o avanço das reformas da previdência, tributária, política. Com tudo o que está acontecendo, elas praticamente não têm avançado. Por isso, é impossível ser taxativo sobre o cenário econômico. Se conseguirmos uma solução rápida para a paralisia política, a economia vai ser menos penalizada e o crescimento, melhor. Caso contrário, poderemos voltar ao cenário de 2015 e 2016. A turbulência política precisa se resolver para as reformas voltarem a avançar.
 
Como as reformas ajudariam a melhorar a economia do País?
 
Elas são fundamentais por atuarem em três frentes. A reforma da previdência faria com que as contas públicas se ajustassem. Dessa forma, seria afastada a preocupação de que, no futuro, o governo tenha que elevar mais os impostos ou, num cenário ainda mais grave, chegar a um calote. Com isso, as empresas, correndo um risco menor, acabam investindo mais, e isso leva à geração de empregos e a maior crescimento e riqueza para todos os brasileiros. As duas outras, que são a reforma tributária e a trabalhista, têm como objetivo reduzir o custo de produção no Brasil. À medida que as despesas ficam menores, ganha-se maior competitividade, o que também aumenta a geração de empregos. Como consequência, os salários ficam mais altos e o consumo novamente cresce. O País conseguiria entrar, assim, num ciclo virtuoso. Por fim, há a reforma política, que deveria garantir condições de governabilidade melhores que as atuais, mudando esse processo em que há um número enorme de partidos de aluguel, que vendem o seu apoio – seja com espaço de televisão, horário eleitoral gratuito, etc. Por isso, as reformas são importantes para um Brasil melhor, mais justo e vencedor.
 
Dá para arriscar alguma perspectiva especificamente para o consumo até o final deste ano?
 
O consumo depende fundamentalmente da confiança, que, por sua vez, no Brasil atual, depende, mais uma vez, do cenário político. O que dá para dizer com maior segurança é que o varejo alimentar é menos impactado do que o restante da economia. A confiança para que alguém compre um pouco mais no supermercado não precisa ser tão grande quanto a confiança para um gasto maior, como a aquisição de um automóvel ou de uma casa nova.
 
A inflação tem sido um ponto positivo até agora. Ela pode ajudar no consumo em 2017?
 
A queda da inflação ajuda de duas formas. A primeira é que cria condições para a taxa de juros cair. Com isso, há expansão de crédito, o que financia maior consumo e investimento. Em segundo lugar, o recuo da inflação aumenta o poder de consumo das pessoas. Quando a inflação está subindo menos do que os salários, coisa que no Brasil nos últimos anos não acontecia, significa que o poder real de consumo aumenta. Isso pode ter um impacto positivo na economia como um todo.
 
Outro ponto positivo é a redução dos juros.Como ficará esse indicador?
 
A queda de juros deve continuar. A inflação está abaixo da meta de 4,5%. Há vários fatores para a queda dos preços. O mais importante é a falta de demanda generalizada. Portanto, a taxa de juros, que já caiu bastante, deve continuar recuando. A Selic já foi de quase 15% e caminha para chegar à faixa de 8% ou talvez de 7%. Isso deve ajudar a estimular o consumo. Mas, para um incentivo maior, a queda dos juros deve ser acompanhada de aumento da oferta de crédito. Isso só vai acontecer se os bancos tiverem confiança na economia e, por consequência, no recuo da taxa de inadimplência.
 
Uma empresa precisa sobreviver em qualquer cenário econômico. Até que ponto é possível se descolar da economia?
 
Nenhuma empresa é uma ilha. Isso significa que, sem dúvida, o cenário econômico mais complicado é difícil para todas as companhias. Mas as empresas não têm o mesmo desempenho. O que elas realizam faz diferença nos seus resultados. Aquelas que têm melhores produtos e serviços conseguem ter resultados melhores. Exatamente por esse motivo é tão importante investir em inovação, em qualidade de atendimento, de processos, de serviço. Tanto isso é verdade que, mesmo num cenário difícil, alguns grupos conseguiram crescer (e crescer bem). E outros tiveram dificuldades ainda maiores do que a média.
 
Você tem avaliado há algum tempo a questão da falta de bons líderes empresariais e citado como qualidades essenciais valores éticos, paixão/propósito fortes e visão de longo prazo. Hoje, você acrescentaria alguma outra característica?
 
O que está mais claro para mim nos últimos tempos é a importância de as lideranças terem coragem de se rebelar contra o que está errado. E, particularmente, de entender que um País mais desenvolvido, mais rico e mais justo só vai acontecer se tivermos não só coragem de lidar com todos os problemas, mas de enfrentar os mais variados interesses, que existem em áreas específicas ou dizem respeito a aspectos também específicos. Ou seja, há grupos que se beneficiam das regras como elas são hoje e não deixam que sejam mudadas. Isso vai desde funcionários públicos defendendo normas de previdência completamente injustas em relação ao resto da população até grupos empresariais que, em troca de taxa de juros subsidiada em determinada linha de financiamento ou qualquer outro benefício, não permitem ajustes. Ir contra isso é um papel importante dos líderes.
 
Além desse, há algum outro atributo das lideranças que se tornou importante nos últimos tempos?
 
A importância da questão ética tem sido realçada por escândalos que parecem nunca acabar e que são cada vez maiores no País. Recentemente, uma preocupação que tem surgido com maior força, na minha opinião, é esses escândalos estarem mostrando que, na realidade, o Brasil tem uma democracia muito fragilizada. Democracia é algo muito valioso, mas muito frágil. O Brasil acabou tendo quase uma “cleptocracia”, com grupos se apropriando do Estado em benefício próprio. Sem valores éticos mais fortes, é difícil evitar esse tipo de situação. Ao contrário, o que temos visto é cada um desses grupos defendendo seus próprios interesses. Entre as três características importantes para as lideranças – valores éticos, paixão/propósito fortes e visão de longo prazo (todos fundamentais quando estamos tratando de líderes) –, ética é o que mais chama a atenção nos últimos tempos.
 
 





    7 de agosto de 2017 às 22:55

    Excelente entrevista. Parabéns. Como sempre muito esclarecedora.



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