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Entrevista do economista Ricardo Amorim ao jornal Tribuna do Norte: maior risco seria não cortar juros.

postado em Entrevistas


Jornal Tribuna do Norte
06/12/11

Por Isaac Lira

 
Queda de juros: o risco maior seria não fazer nada.
 
O Copom deve continuar reduzindo os juros. Essa é a opinião do economista Ricardo Amorim, que faz parte da bancada do programa Manhatan Connection, da GloboNews, e deu entrevista por e-mail à TRIBUNA DO NORTE. Segundo Ricardo Amorim, o corte na taxa básica de juros é uma aposta do Banco Central de que a crise na Europa irá piorar, com consequências negativas e significativas sobre a economia brasileira. “Como reduções de juros levam pelo menos seis meses para impactar a economia, se o BC esperasse a crise europeia tomar proporções globais para só então reagir, a recessão já estaria instaurada no país até os efeitos da queda dos juros serem sentidos”, afirma.

 

O futuro da economia brasileira e mundial foi o tema da palestra de Ricardo Amorim no seminário Motores do Desenvolvimento, realizado pela TRIBUNA DO NORTE, Fecomércio/RN, Fiern, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Governo do Estado do RN e RG Salamanca Capital, com patrocínio da Assembleia Legislativa do RN, Consórcio Inframérica e Petrobras Distribuidora.
 
A União Europeia vive turbulências com a crise na Itália. Qual o futuro desse bloco econômico? Há possibilidade de a União Europeia se desfazer?
Chegou a hora da verdade na Europa. Como venho alertando nos dois últimos anos, o projeto da Zona do Euro, como inicialmente concebido, é insustentável.
 
A União Europeia nasceu com o objetivo de integrar diversos países, tornando-os mutuamente dependentes, reduzindo assim riscos de conflitos entre eles, inclusive bélicos.
 
Infelizmente, em seu formato atual, a coesão não é suficiente para atingir esta meta. Pelo contrário. Hoje, um mix de interdependência monetária e cambial e completa independência fiscal está exacerbando as tensões políticas entre os países da zona do euro.
 
Muito em breve, a Europa terá de decidir entre mais coesão, perda de autonomia nacional ou, o caminho oposto, revertendo seu projeto mais ambicioso e seu mais importante instrumento de integração, a moeda comum, com a saída de um ou vários países da zona do euro.
 
Mais integração exige a adoção de medidas politicamente impopulares tanto pelos países em situação financeira frágil, como pelos que atuariam como âncora da Europa unida.
 
Por um lado, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália teriam que abrir mão de boa parte de sua soberania fiscal para a União Europeia. Quer um paralelo? Imagine que, em meio a uma crise no Brasil, fossem anunciados a criação de novos impostos, o aumento de idade de aposentadoria e o fechamento de hospitais por decisão do governo do Mercosul.
 
Por outro lado, a Alemanha teria que financiar uma enorme expansão dos recursos do fundo de resgate europeu e a criação de “bônus europeus” que transferem a todos os membros da zona do euro a responsabilidade pela dívida de cada um deles e aceitar a emissão de euros pelo Banco Central Europeu para compra de títulos de países em dificuldades – o que causará desvalorização da moeda e aceleração da inflação. Consegue imaginar o Brasil aceitando a volta da inflação para ajudar a Argentina ou se responsabilizando pela dívida do Paraguai?
 
A Europa terá de decidir se quer e se consegue avançar na integração. Sem isso, calotes soberanos e uma nova crise econômica global são inevitáveis. Ambas alternativas são difíceis e dolorosas. Não existe a opção do status quo.
 
Além de seus impactos sobre as perspectivas de crescimento global no próximo ano, a decisão europeia será fundamental para definir todo arcabouço da economia mundial na próxima década.
 
Se optar pela integração, para ter sucesso, a Europa terá de ser apoiada por organismos internacionais – cuja própria sobrevivência dependerá de sua capacidade de apoio e de cobrança de medidas duras – e, principalmente, pelos novos donos do dinheiro no mundo, os países emergentes, capitaneados pela China. Para isso, europeus, americanos e japoneses terão de reconhecer, formalmente, sua atual dependência financeira de países historicamente periféricos e realizar uma enorme transferência de poder para eles nos organismos multilaterais.
 
Se todos não formos capazes de darmos passos tão grandes, o processo de desintegração econômica e recessão na Europa pode virar a semente de movimentos protecionistas que revertam a globalização das últimas décadas, podendo, no limite, colocar em risco o próprio sistema capitalista.
 
O Copom baixou a taxa de juros na última reunião. Os juros devem continuar caindo? O senhor considera essa medida adequada?
Tradicionalmente, bancos centrais são conservadores e apenas reagem a fatos consumados, não se antecipando a eles. Por isso, gerou surpresa a ousadia do Banco Central (BC) em reduzir as taxas de juros enquanto a inflação, que já estava acima da meta, continua em elevação.

Somando a decisão do BC às declarações da presidente Dilma, poucos dias antes, de que haveria condições para se reduzir os juros, surgiram preocupações com uma potencial interferência política nas decisões do BC, o que minaria um dos mais fundamentais pilares da estabilização brasileira, a autonomia da autoridade monetária.
 
No entanto, ao que parece, o BC fez uma aposta. Apostou que a crise econômica na Europa vai piorar muito e logo, com consequências negativas significativas sobre a economia brasileira. Se isto acontecer, o que está longe de ser improvável, a decisão terá sido correta. Como reduções de juros levam pelo menos seis meses para impactar a economia, se o BC esperasse a crise europeia tomar proporções globais para só então reagir, a recessão já estaria instaurada no país até os efeitos da queda dos juros serem sentidos.
 
Por outro lado, se for encontrada uma solução para as dificuldades europeias que impeça a geração de problemas bancários, que tornariam a crise global, é provável que a inflação continue a subir. Isto forçaria o BC não apenas a reverter a queda dos juros, mas a elevá-los de forma mais contundente.
 
Sem dúvida, a decisão foi arriscada. Entretanto, como o mais provável ainda parece o agravamento da crise europeia com consequências globais, talvez, o risco mais significativo fosse não fazer nada e esperar. O tempo dirá.
 
Já é possível afirmar que essa é a década dos chamados emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China)? Os Estados Unidos devem continuar perdendo força? Por que?
A década passada já foi a década dos emergentes e esta será mais ainda. Por exemplo, o crescimento brasileiro dobrou de velocidade em relação à média dos 25 anos anteriores, passando a uma média de 4,9% entre 2004 e 2010, impulsionado pela fome chinesa, por nossos metais e alimentos. Enquanto isso, o crescimento médio nos países desenvolvidos foi metade da média das 3 décadas anteriores. As mesmas forças que causaram isto na década passada – principalmente demografia favorável, altos preços de commodities, queda de preços de produtos industrializados, baixas taxas de juros, redução de endividamento dos países ricos e atração de talentos para os países emergentes – farão com que a história se repita nesta década e, talvez, por uma ou duas décadas mais.
 
Com isso, o Brasil viu sua posição se transformar de retardatário a líder global. Desde 2004, a contribuição brasileira para o crescimento mundial tem sido maior do que a do Japão, a segunda maior economia do planeta. As empresas instaladas no país passaram a ter um crescimento de geração de lucros maior do que em todos os países desenvolvidos, com exceção dos EUA.
 
Como consequência, muitas empresas brasileiras passaram de presas a predadoras nas grandes fusões internacionais e hoje estão entre as maiores do mundo em seus setores. Alguns exemplos são o Itaú, que comprou as operações latino-americanas do BankBoston e é hoje um dos dez maiores bancos globais, o JBS que comprou a Swift e a Pilgrim’s Pride – empresas americanas – tornando-se a maior empresa de carnes e laticínios do mundo e a AMBEV, que com a compra da Budweiser, um ícone americano, passou a ser uma das maiores cervejarias do mundo.
 
Por tudo isso, tanto a Copa do Mundo quanto as Olimpíadas serão aqui.





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