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Entrevista sobre palestra sobre inovação, competitividade e perspectivas econômicas

postado em Entrevistas | Palestras


ACIJ

02/2014

 
– Em sua palestra, você trata de inovação e competitividade no Brasil e no mundo. Como analisa esse panorama? Estamos muito distantes de um patamar ideal em termos de inovação? Aliás, como você define inovação?

Inovação é mais fácil de reconhecer quando deparamos com uma do que definir, mas na essência, inovação nada mais é do que uma forma nova e melhor de lidar com um problema ou situação.

Infelizmente, de fato, o Brasil não está nada bem em termos de inovação no panorama mundial. De acordo com o ranking do INSEAD, o Brasil é o 64º país em inovação no mundo, entre 142 países.
De acordo com o ranking do BCG, a situação é ainda pior. Estamos em 72º lugar entre 110 países.

Sem inovação, não há crescimento sustentável acelerado. A baixa taxa de inovação da economia brasileira é uma das responsáveis pela baixa competitividade e baixo crescimento do Brasil desde a década de 80. Na essência, inovamos pouco porque temos baixa qualificação média de mão de obra – em razão de educação ruim – e ambiente econômico com pouco incentivo à inovação – propriedade intelectual frágil, linhas de financiamento de pesquisa relativamente limitadas e ambiente macroeconômico relativamente instável, o que leva as empresas a focarem no hoje e darem menos atenção ao amanhã.

Felizmente, há exceções. Há empresas brasileiras que foram capazes de criar uma cultura extremamente inovadora e lucrar com isso. Um dos meus exemplos favoritos é a Brasilata, uma empresa de embalagens, que em 1987 implantou um programa pedindo sugestões de melhorias a todos os seus funcionários, que passaram a ser vistos como “inventores”. Em 2008, cada inventor propôs, em média, 145 melhorias.
 
– A Coreia é citada sempre como referência nesta matéria. O que ainda podemos (se podemos) aprender com eles?

A Coreia é o melhor exemplo de como um trabalho bem feito em educação e inovação mudam um país. Recentemente, publiquei um artigo, João e Kim, realçando as diferenças do modelo de desenvolvimento coreano e brasileiro nas últimas décadas e seus resultados. Em 1960, a renda per capita na Coréia era metade da brasileira. Em 1970, eram parecidas. Hoje, na Coréia, ela é três vezes maior do que a nossa.

A primeira lição importante para nós é que o país dos Kims investiu no ensino público básico, de qualidade e acessível a todos. O governo coreano gasta quase seis vezes mais do que o brasileiro por aluno do ensino médio. Na Coréia, um professor de ensino médio ganha o dobro da renda média local; no Brasil, menos do que a renda média. Com isso, os Kims estão sempre entre os primeiros lugares nos exames internacionais de estudantes de ensino fundamental e médio – muitas vezes, em primeiro lugar. Os Joãos, melhor nem falar.

Só após garantir uma boa formação básica e bom ensino técnico, os coreanos investiram em ensino universitário. Ainda assim, a Coréia tem 3 universidades entre as 70 melhores do mundo. O Brasil não tem nenhuma entre as 150 primeiras. Hoje, a Coréia do Sul é, em todo o mundo, o país com maior percentual de jovens que chega à universidade – mais de 70%, contra 13% no Brasil. De quebra, o país dos Kims forma 8 vezes mais engenheiros do que nós em relação ao tamanho da população de cada um. Tudo isso com um detalhe: a Coréia gasta menos com cada universitário do que o Brasil, mas forma 4 vezes mais PhDs per capita do que nós. Por consequência, inova mais e tem várias empresas líderes em tecnologia.

Para cada won gasto com a aposentadoria na Coreia, o governo gasta 1,2 won com escolas. No Brasil, para cada real gasto pelo governo com a aposentadoria, ele gasta apenas R$ 0,10 com escolas.
 
– O crescimento econômico brasileiro segue ancorado no consumo. Aonde isso vai nos levar?

A expansão do consumo de massas em si é muito benéfica em termos econômicos e sociais. O problema é que ela não pode ser a única base de crescimento do país e tem sido. Se um país só estimula o consumo e não estimula a produção, acaba acontecendo um desequilíbrio entre forte crescimento da procura por produtos e serviços e crescimento menor da oferta destes produtos e serviços. O resultado é menor crescimento econômico, pressão inflacionária e piora da balança comercial devido a forte aumento das importações. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil.

De 2004 a 2010, o PIB brasileiro cresceu a um ritmo de quase 5% a.a., 2,5 vezes a média dos 25 anos anteriores. Só foi possível por ajustes econômicos feitos antes, um forte crescimento na procura global por matérias primas que exportamos, e uma grande queda do custo de capital no mundo. Este modelo de desenvolvimento baseado na expansão da procura tanto externa quanto doméstica pelos nossos produtos e serviços está esgotado. Nos últimos 3 anos, voltamos à média histórica de crescimento do PIB de apenas 2% a.a.

Em novembro do ano passado, escrevi um artigo chamado Feliz 2014? Prevendo que a economia brasileira como um todo teria, na melhor das hipóteses, um 2014 medíocre. . Na pior, estagnação. Sem uma nova crise externa, o PIB deve cresceria cerca de 2% e os juros subiriam para impedir que a inflação aumentasse, mas se uma desaceleração dos estímulos monetários nos EUA deflagrasse o estouro de bolhas de ativos pelo mundo, a recuperação da economia chinesa fosse abortada, ou novas crises financeiras pipocassem na Europa ou nos países emergentes, nosso crescimento seria próximo de nulo.

De lá para cá, as perspectivas para o crescimento brasileiro pioraram. De acordo com os dados do Banco Central, o Brasil está em recessão desde o 3º trimestre do ano passado.

Aliás, todo final de ano, escrevo um artigo sobre as perspectivas econômicas para o ano seguinte. Feliz 2014? Foi o 4º artigo consecutivo prevendo que o crescimento no Brasil decepcionaria. Enquanto nossa política econômica não mudar, privilegiando a produção, o crescimento não vai se acelerar de forma sustentável.
 
– Estamos perto das eleições presidenciais. O que se pode esperar do governo Dilma, até o pleito, no campo da economia, e como você avalia a ação do governo atual nessa área? Qual o maior acerto e o maior erro da presidente em questões econômicas?

Com as pesquisas apontando sua vitória nas eleições, não é provável que a Presidenta Dilma faça mudanças significativas na política econômica neste ano. Por outro lado, como enfatizei no artigo Ponto de Ruptura, acredito que mudanças na política econômica que estimulem produtividade e competitividade são inevitáveis em um próximo mandato, ganhe quem ganhar as eleições. Sem elas, o crescimento continuará minguando, o que acabará resultando em alta de desemprego, baixa de salários e queda de popularidade do governo.

Para mim, o maior erro do governo Dilma foi o aumento da ingerência governamental na economia, o que reduziu a lucratividade e a eficiência em vários setores, como energia elétrica, petróleo e gás, mineração e outros. O resultado foi uma queda dos investimentos. Com o consumo crescendo bem baseado em expansão de emprego, salários e crédito, gerou-se um desequilíbrio entre forte aumento da demanda e aumento mais lento da produção. Resultado? Mais inflação e menos crescimento.
 
– Dentre as expectativas do empresariado, em tempo de eleições, está a emergência de uma reforma tributária. Ainda se pode acreditar nisso, de fato?

Antes das eleições, as chances de uma reforma tributária profunda são próximas a zero. Mesmo passadas as eleições, não sou otimista quanto a uma reforma da proporção e magnitude que precisamos. O grande problema é que a parte mais importante da reforma tributária, a que envolveria uma alíquota única de ICMS em todo o país, é muito difícil de ser aprovada no Congresso. Governador nenhum aceitará a redução da sua base de tributação, o que significa que ou a reforma tributária teria de ser feita unificando o ICMS pela alíquota mais alta do país, aumentando ainda mais a carga tributária, ou o governo federal teria de ressarcir os Estados que teriam perda de receitas com a reforma. Para ter fundos para isso, o governo federal teria de cortar outros gastos e, pelo menos por enquanto, nenhum candidato presidencial apresentou nenhuma proposta significativa de cortes de gastos que possibilitaria isso. Por isso, acho mais provável alguns remendos tributários do que uma reforma tributária digna do nome.

 
– Voltando ao consumo, como você avalia o comportamento do consumidor brasileiro? Quem estava com a razão, naquele embate do Manhattan Connection sobre inadimplência, e quais as causas desse fenômeno (seja crescimento, seja enxugamento da inadimplência no varejo)?

Tanto a Luíza Trajano quanto o Diogo Mainardi tinham a sua dose de razão na discussão no Manhattan Connection. Na questão mais técnica da inadimplência, ainda que haja indicadores apontando um crescimento no ano passado, a maioria e o mais amplo de todos eles, o do Banco Central, apontam uma queda da inadimplência, portanto dando razão à Luíza. A Luíza também tem razão de que não há crise alguma no varejo brasileiro, ao contrário do que disse o Caio Blinder. O Diogo, no entanto, tem razão quanto à deterioração generalizada dos demais indicadores da economia brasileira, incluindo os do varejo, que apesar de ainda ter tido um crescimento de vendas de 4,3% no ano passado, teve o pior desempenho do setor em 10 anos.

Em resumo, como todo o resto da economia brasileira, o varejo brasileiro está crescendo menos do que ele mesmo crescia há poucos anos. A desaceleração demorou mais para atingir o varejo e o varejo continua crescendo mais do que o resto da economia brasileira, mas está se desacelerando. O lado cheio do copo do varejo brasileiro é que desde 2004, as vendas do varejo cresceram mais do que a produção da indústria em todos os anos e em 2014 não deve ser diferente. O lado vazio é que o crescimento de 2013 foi o menor do setor em 10 anos e em 2014 não deve ser muito melhor do que em 2013, possivelmente até seja pior.

Os setores que mais cresceram no Brasil nos últimos 10 anos foram aqueles cujo desempenho é determinado pelo consumo: varejo, atacado e serviços. À medida que o número de pessoas trabalhando cresceu, os salários subiram e o crédito expandiu-se, o mercado consumidor no Brasil ampliou-se e o consumo ganhou mais importância na economia nacional. Dados os movimentos que estavam acontecendo na economia brasileira e mundial, nada disso deveria ser surpresa, tanto que ainda no início de 2010 publiquei um artigo, Abre alas, que a classe média quer passar, prevendo este forte crescimento do consumo. Ainda assim, sua importância para a economia brasileira foi brutal. Aliás, sem esta forte expansão do consumo, o Brasil estaria em recessão desde 2011.

 
– A que você atribui o interesse aparentemente elevado por parte do telespectador brasileiros em abordagens econômicas como as que você faz no programa?

Para mim, o interesse das pessoas por economia é a coisa mais natural do mundo. Gostemos ou não, a evolução da economia mexe de forma determinante com a vida de todos nós. Na minha opinião, a única coisa que cria em muita gente a impressão de não gostar do tema economia é a incapacidade de muitos profissionais da área econômica em mostrar de forma clara e objetiva como aquele assunto que está sendo tratado vai impactar na vida daquele telespectador. Ao perceber que economia não precisa ser um assunto etéreo e desconectado das suas vidas, as pessoas se interessam por ele sem nem dar-se conta.

 

– Fechando, sempre pedimos aos entrevistados para esta seção da revista a indicação de cinco livros de cabeceira, que julgue emblemáticos e relevantes para sua atividade, ou, no caso, para a compreensão dos mistérios da economia etc. Se possível, com breve comentário de cada um.

Como sou apaixonado pelo tema, não consegui limitar-me a cinco. Aí vão seis dicas:
 
– Por que Países Fracassam

 Daron Acemoglu e James A. Robinson mostram a diferença de estratégia entre os países que ficam ricos e os que não ficam e como ela se deve principalmente a líderes corruptos, sem compreensão da História e que não investem em educação – formação de capital intelectual – e criação de ambientes propícios a negócios.

Super-Freakonomics

Aplicando a teoria econômica e esmiuçando dados que passam despercebidos pela maioria, o livro desvenda mistérios e desmistifica falsas verdades. Na essência, mostra como os princípios da economia podem ser aplicados a situações que maioria não imagina ter a ver como economia. Sou até suspeito quanto a este livro. Gostei tanto que até escrevi o prefácio da edição brasileira.

Economia sem Truques

Princípios básicos de economia ensinados de forma simples e lúdica e aplicados a questões práticas da realidade brasileira. O mais fácil de ler desta lista. Bom para quem nunca leu nada sobre economia e quer começar.

ManiasPânico e Crashes

Ótimo panorama histórico da economia mundial desde o Império Romano, ilustrado pelas muitas crises ocorridas desde então. Ajuda a entender que como na nossa vida pessoal, crises esporádicas também são inevitáveis na economia, mas conhecendo seus padrões, podemos nos preparar para elas com alguma antecedência, ao invés de sermos pegos totalmente de surpresa.

Punidos pelas Recompensas

Profunda análise crítica sob a perspectiva da psicologia dos múltiplos efeitos colaterais de um dos pilares de qualquer sistema econômico: seu sistema de punições e recompensas.

Ensaios de Warren Buffett

Nada como aprender os princípios que devem reger suas decisões de investimento com o investidor mais bem-sucedido da história.

 

 

 

Ricardo Amorim é apresentador do Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ, presidente da Ricam Consultoria, único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do Speakers Corner e economista mais influente do Brasil segundo o Klout.com. Perfil no Twitter: @ricamconsult.
 





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