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Entrevista de Ricardo Amorim para a Associação Comercial e Empresarial de Maringá sobre perspectivas econômicas para 2015

postado em Entrevistas


11/2014

ACIM

 
As vendas do varejo cresceram mais do que a produção industrial. Qual a perspectiva para a indústria no ano que vem? E para o varejo será um ano difícil?
 
Desde 2004, as vendas do varejo cresceram mais do que a produção industrial em todos os anos e este quadro deve se repetir em 2015. A competição externa mais aguda na indústria explica porque seu desempenho tem sido sistematicamente inferior ao do varejo. Infraestrutura ruim, impostos altos demais, legislação trabalhista engessada, burocracia excessiva, baixa qualificação da mão de obra prejudicam tanto varejo quanto indústria, mas a indústria sofre mais as consequências porque é mais exposta à competição de empresas estrangeiras, particularmente as chinesas desde 2002 e as americanas e europeias desde 2009. Em outras palavras, o consumo cresceu muito no Brasil nos últimos anos, mas boa parte dele foi suprido por empresas estrangeiras. Em 2006, o Brasil chegou a ter um superávit comercial de US$20 bilhões em produtos manufaturados. Nos últimos 12 meses, tivemos um déficit de US$ 120 bilhões. Por isso, mesmo com o crescimento do consumo e vendas do varejo, a produção da nossa indústria é menor hoje do que era há 6 anos. Felizmente, as regiões mais dependentes da renda do agronegócio, mineração e programas sociais – Centro-Oeste, Nordeste e Norte – têm um desempenho melhor do que a economia brasileira como um todo, mas nas regiões mais industrializadas – Sul e Sudeste – o desempenho da economia é ainda pior do que o do PIB brasileiro, que nos últimos 4 anos já foi o que menos cresceu em toda a América Latina.
 
 

Os reajustes de energia elétrica e combustível, previstos para o ano que vem, pressionarão a inflação. Isso significa que o Banco Central deve aumentar ainda mais a Selic, que já está no nível mais alto dos últimos três anos?
 
A inflação não está apenas mais elevada, está grávida. O dragãozinho dos preços controlados pelo governo nasce agora, após as eleições. Há mais de um ano, os preços de ônibus, metrô, gasolina, energia elétrica e outros têm sido represados para conter a inflação e as manifestações de rua. Estes preços terão de ser realinhados para evitar o colapso dos serviços e contas públicas. Os reajustes pressionarão a inflação, forçando o Banco Central a aumentar ainda mais os juros, que já estão no nível mais alto desde 2011, limitando o crédito e reduzindo o crescimento econômico.
 
 

O ajuste de contas públicas será inevitável. Na prática, o que isso significa para a economia de 2015? Vamos limitar o crescimento?
 
Só a diferença entre o preço internacional do petróleo e os preços nacionais de seus derivados custava à Petrobrás mais de R$ 40 bilhões anuais antes da queda recente dos preços do petróleo no mercado internacional. A utilização de usinas termoelétricas para geração de energia elétrica custará de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões só neste ano, e mais ainda em 2015. A renúncia fiscal com a desoneração de salários custará mais R$ 24 bilhões só em 2014. O ajuste das contas públicas é inevitável. Ele virá através de elevação de preços, corte de gastos do governo ou aumento de impostos, provavelmente os três.
Aumentos de impostos e redução de gastos do governo devem retirar dinheiro da economia em 2015, também limitando o crescimento.

Se arrumarmos a casa em 2015, retomando a confiança de empresários e consumidores, podemos retomar um ciclo de crescimento mais acelerado a partir do final do ano que vem. Isto dependerá das medidas econômicas adotadas até lá e da definição da equipe econômica do próximo governo.
 
 

O Brasil ancorou o crescimento na expansão da classe média. Esse modelo de apenas estimular o consumo já se esgotou? E quais outras alternativas temos para voltar a crescer?
 
Claramente, o modelo de estímulo a consumo sem estímulo à produção está esgotado.

O consumo não deve ser vilanizado de forma alguma, mas a produção também não pode ser, como foi nos últimos anos. A produção da indústria no Brasil hoje é menor do que há 6 anos. Nenhum país consegue crescer em ritmo acelerado com a indústria estagnada e a indústria não voltará a crescer se não passarmos a focar também em incentivos à produção. O problema não foram os incentivos ao consumo nos últimos anos, mas a falta de incentivos à produção. Crescimento equilibrado exige tanto produção quanto consumo fortes.

Nos últimos anos, o crescimento brasileiro baseou-se no crescimento da classe média e seu potencial de consumo. A expansão do consumo de massas em si é muito benéfica em termos econômicos e sociais. O problema é que ela não pode ser a única base de crescimento do país e tem sido. Se um país só estimula o consumo e não estimula a produção, acaba acontecendo um desequilíbrio entre forte crescimento da procura por produtos e serviços e crescimento menor da oferta destes produtos e serviços. O resultado é menor crescimento econômico, pressão inflacionária e piora da balança comercial devido a forte aumento das importações. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil.

Infelizmente, desde 2011, o crescimento econômico tem decepcionado ano após ano e neste ano não tem sido diferente. Há um ano e meio, a maioria dos analistas acreditava que o PIB poderia crescer pelo menos 4% neste ano. A estas alturas, sabe-se que o crescimento será nulo. Na economia, o vexame tem sido pior do que foi na Copa. O Brasil está tomando de 7 a 0, neste ano. A inflação está em quase 7% e o crescimento do PIB será próximo de 0%.

É inevitável uma mudança do modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, favorecendo a produção, independentemente de quem ganhar as eleições. A própria presidente Dilma já reconheceu a necessidade de mudança. Na prática, isto significa que o próximo governo deveria estar focado em reduzir a carga e simplificar a legislação tributária, reformar nossas leis trabalhistas, melhorar nosso ambiente de negócios, reduzindo burocracia e estimulando investimentos privados, aumentar os investimentos em infraestrutura e melhorar a qualidade da educação. Para que tudo isso seja possível, o governo deveria cortar seus gastos para liberar recursos.

Dois fatores que permitiram que o Brasil avançasse 2,5 vezes mais rápido entre 2004 e 2010 do que antes se esgotaram: incorporação de mão de obra e maior utilização da infraestrutura já existente. Desde 2003, quase 20 milhões de brasileiros sem emprego passaram a trabalhar, colaborando com a produção. O desemprego caiu de 12% para 5%. Não cairá mais. Aliás, o total de empregos nas principais capitais é que vem caindo ao longo deste ano.
Isto significa que só poderíamos crescer como antes acelerando a produtividade, o que exigiria trabalhadores melhor preparados e equipados. Isto exige muito investimento em educação e treinamento, mas também em máquinas, equipamentos e tecnologia.

Para retomarmos a competividade, e sustentarmos um crescimento mais rápido, só investindo muito em qualificação de mão de obra, máquinas, equipamentos e infraestrutura. A China, que cresce 3 a 4 vezes mais rápido que o Brasil, investe em sua infraestrutura, a cada ano, o equivalente a todo o estoque de infraestrutura existente no Brasil.

A produtividade média do trabalhador americano é hoje 5 vezes a do trabalhador brasileiro. Em outras palavras, para executar a mesma função, você pode contratar um americano ou 5 brasileiros. A razão mais óbvia para isso é a melhor qualidade da educação por lá, mas tão importante quanto isso é o fato do trabalhador americano estar muito melhor equipado que o brasileiro. Para executar seu trabalho, ele conta com uma série de ferramentas, máquinas, software e hardware que o brasileiro não conta. Mal comparando, um agricultor com um trator produz mais do que 5 vezes mais do que 5 trabalhadores cada um deles com uma enxada. Precisamos automatizar e mecanizar a economia brasileira, mas isto tem de acontecer em paralelo a um aumento da qualificação da mão de obra. Voltando ao meu exemplo, não basta apenas comprar um trator para um dos 5 trabalhadores que mencionei se ele não souber usar o trator.

Isto tudo não quer dizer que não haja oportunidades.  Por conta do mau desempenho econômico brasileiro recente, o pessimismo reina por aqui e quando o pessimismo reina, como hoje, a maioria se retrai, a concorrência diminui e as grandes chances aparecem. A mãe das oportunidades são os problemas. A lagarta não escolhe virar borboleta. Ela se transforma porque não tem escolha. Além disso, mesmo em uma economia que vai mal, há setores e regiões que prosperam.
 
 

Logo após a reeleição da presidente Dilma houve queda das ações na Bolsa e aumento do dólar. Qual é o panorama para a Bolsa e cotação da moeda americana em 2015?
 
Isto dependerá de dois fatores: a linha de política econômica que será seguida pela equipe da Presidente Dilma no segundo mandato e do mercado internacional.

Na primeira semana após as eleições, o governo aumentou o preço da gasolina, subiu os juros e convidou o presidente do maior banco privado brasileiro para o cargo de Ministro da Fazenda, todas absolutamente medidas necessárias, mas que durante a eleição, a presidente dizia que quem faria seriam seus opositores. Se o governo seguir na linha de colocar a casa em ordem e a economia der sinais de recuperação na metade final do ano que vem, a Bolsa pode ter uma alta expressiva no ano que vem e o dólar cairá. Neste cenário, possivelmente a taxa de câmbio chegue até cerca de R$/US$ 2,00 e a Bolsa pode subir muito porque hoje, considerando-se o nível médio de preço das ações em relação a sua rentabilidade histórica, ela está mais de 30% abaixo da média histórica, o que sugere um alto potencial de valorização.

Por outro lado, se o governo aumentar ainda mais o intervencionismo estatal, como temem alguns, a Bolsa ainda pode cair mais. Além disso, pelo mesmo parâmetro de precificação considerado no Brasil, a Bolsa americana está 80% mais cara do que sua média histórica, o que só aconteceu em 1929 e em 2000. Nos dois casos, seguiram-se fortes baixas e crises com repercussões globais. Além disso, há uma bolha imobiliária e uma bolha de crédito que irão estourar na China em algum momento. Não há como saber se isto acontecerá em 2015 ou só daqui a alguns, ou talvez, vários anos, mas quando acontecer, o impacto será significativo no Brasil, incluindo um forte queda da Bolsa e uma grande alta do dólar, talvez até a casa dos R$4,00.
 
 

 

Ricardo Amorim é apresentador do Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ, presidente da Ricam Consultoria, único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do Speakers Corner e economista mais influente do Brasil segundo a revista americana Forbes.

Perfil no Twitter: @ricamconsult.
 
 





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