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Entrevista de Ricardo Amorim sobre oportunidades e desafios para o setor de Saúde no Brasil

postado em Entrevistas


08/2014

Abramge

 
Como o senhor avalia o desempenho econômico do Brasil neste ano? Estamos caminhando dentro do esperado? E o que era esperado?

Infelizmente, desde 2011, o crescimento econômico tem decepcionado ano após ano e neste ano não foi diferente. Há um ano e meio, a maioria dos analistas acreditava que o PIB poderia crescer pelo menos 4% neste ano. A estas alturas, sabe-se que o crescimento, na melhor das hipóteses,  chegará a 1%. Na economia, o Brasil está tomando mais um 7 a 1, neste ano. A inflação está hoje em quase 7% e o crescimento do PIB, provavelmente, não chegará nem a 1%.

Isto não quer dizer que não haja oportunidades. Quando o pessimismo reina, a maioria se retrai, a concorrência diminui e as grandes chances aparecem. A mãe das oportunidades são os problemas. A lagarta não escolhe virar borboleta. Ela se transforma porque não tem escolha.
Além disso, mesmo em uma economia que vai mal, há setores e regiões que prosperam.

 

Quais são as perspectivas para a economia em 2015 no Brasil? Há possibilidade da retomada do crescimento? Esse quadro dependerá do resultado das eleições presidenciais?

Infelizmente, 2015 também deve ser um ano difícil. A inflação não está apenas mais elevada, está grávida. O dragãozinho dos preços controlados pelo governo nasce após as eleições. Há mais de um ano, os preços de ônibus, metrô, gasolina, energia elétrica e outros têm sido represados para conter a inflação e as manifestações de rua. Estes preços terão de ser realinhados para evitar o colapso dos serviços e contas públicas.
Só a diferença entre o preço internacional do petróleo e os preços nacionais de seus derivados custa à Petrobrás mais de R$ 40 bilhões anuais. A utilização de usinas termoelétricas para geração de energia elétrica custará de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões só neste ano, e mais ainda em 2015. A renúncia fiscal com a desoneração de salários custará mais R$ 24 bilhões só em 2014. O ajuste das contas públicas é inevitável. Ele virá através de elevação de preços, corte de gastos do governo ou aumento de impostos, provavelmente os três.
Os reajustes pressionarão a inflação, forçando o Banco Central a aumentar ainda mais os juros, que já estão no nível mais alto desde 2011, limitando o crédito e reduzindo o crescimento econômico. Aumentos de impostos e redução de gastos do governo devem retirar dinheiro da economia em 2015, também limitando o crescimento.

Se arrumarmos a casa em 2015, podemos retomar um ciclo de crescimento mais acelerado a partir do final do ano que vem. Isto dependerá das medidas econômicas adotadas até lá, o que por sua vez, dependerá em grande mediada dos resultados das eleições, que após o falecimento de Eduardo Campos são mais incertos do que nunca.

 

Qual é o panorama da saúde privada no Brasil, hoje?

Do ponto de visto da expansão da cobertura do sistema, muito positivos. Apesar de ter crescido em ritmo acelerado e consistente nos últimos 10 anos, apenas cerca de 50 milhões de pessoas já são cobertas pelo sistema de saúde complementar, o que indica ainda um grande espaço de crescimento nos próximos anos.

 
De que forma o cenário econômico do Brasil no próximo ano poderá interferir no mercado da área de saúde?

Saúde e educação são hoje os maiores desejos da população. A incapacidade do governo em oferecer serviços de qualidade nestas áreas cria uma enorme oportunidade para o setor privado. Dificilmente, este quadro mudará a curto prazo. O desafio para o setor é que se a economia continuar crescendo pouco, o numero de empregos no país cairá, o que aliás já vem acontecendo há alguns meses. Menos empregos significa menos demanda de saúde complementar por parte das empresas e menos capacidade de pagamento de planos individuais por parte das pessoas físicas. Assim, um bom desempenho do mercado de trabalho é o fator chave para que o forte desejo por saúde suplementar possa efetivamente transformar-se em forte demanda para o setor.

 
Quais desafios as prestadoras de serviços de saúde enfrentarão?

Neste ano e no seguinte, acredito que seja o mercado de trabalho mais fraco, mas a médio prazo, o maior desafio é lidar com custos que crescem em ritmo muito acima da inflação no setor por um lado e uma regulamentação que tenta impedir que estes aumentos de custo sejam passados integralmente aos consumidores. Para complicar ainda mais este quadro a longo prazo, há o gradual envelhecimento da população brasileira, que pressionará ainda mais os custos para o setor. Para lidar com isso, as empresas do setor tem de controlar custos, por exemplo ganhando escala através de fusões.

 

Há oportunidades de expansão para a saúde privada? Se existem quais seriam elas?

Sem dúvida nenhuma o setor crescerá em ritmo muito mais acelerado do que o resto da economia brasileira neste ano, no próximo e nos seguintes. O desafio é crescer sem perder rentabilidade.

 

É possível antecipar as tendências da economia mundial para os próximos semestres? De que forma a conjuntura internacional pode afetar o Brasil?

A princípio, a conjuntura internacional deveria ser um pouco mais favorável ao Brasil devido a sinais, ainda que incipientes, de que tanto a economia chinesa quanto a americana estão crescendo com um pouco mais de vigor. Porém isto está longe de estar garantido. A economia europeia parece estar caminhando para uma nova recessão e há risco de estouro de bolhas de ativos na China e EUA que podem, de uma hora para outra, azedar o cenário internacional. Na China, onde foram construídas 22 milhões de novas moradias no ano passado – 110 vezes mais do que no Brasil – há uma bolha imobiliária que parece próxima do ponto de estourar. Há também uma bolha de crédito, com um total de crédito na economia mais de duas vezes maior do que era nos EUA em 2008, quando estourou a crise financeira global. Nos EUA, há uma bolha acionária, com preços médios de ações mais de 80% superiores às médias históricas. Desde 1870, a Bolsa americana só ficou tão cara duas vezes, em 1929 e 2000. Nas duas oportunidades, seguiram–se estouros de bolhas com impactos negativos significativos em toda a economia mundial.

 

Como o senhor analisa a questão do financiamento dos serviços de saúde no Brasil?

Este é um dos maiores desafios do país a médio prazo. Hoje, os serviços de saúde complementar, que cobrem apenas 50 milhões de brasileiros recebem investimentos praticamente iguais aos da saúde pública, que ao menos em tese, deveria cobrir mais de 200 milhões de brasileiros, o que em parte explica a má qualidade dos serviços prestados pelo setor público.

 

Os custos na área de saúde se elevam na medida em que avançam as tecnologias. De que forma esse fator afeta o mercado da saúde?

Brutalmente. Os consumidores querem e os reguladores exigem que os avanços tecnológicos sejam incorporados aos sérvios oferecidos tanto pelos planos privados quanto pela saúde pública, mas por outro lado, eles não tem capacidade financeira para arcar com os aumentos de custos. Na minha opinião, a única forma de lidar com este desafio, sem levar nosso modelo de saúde à falência é segmentando mais o mercado. Ao invés de exigir de todos os planos a adoção generalizada de tecnologias, deveríamos deixar a critério dos próprios planos esta adoção, fazendo com que planos que quisessem disputar os clientes mais abastados fossem obrigados, por forças de mercado, a adotá-las, mas não necessariamente todos os planos. Por outro lado, para que este modelo funcionasse, os consumidores teriam de ter mais facilidade para comparar serviços oferecidos por planos diferentes e para mudar de planos sem perda de carências. Desta forma, estimularíamos a competição entre os planos, mas não teríamos aumentos de custos exagerados em todos eles. Da mesma forma, no caso da saúde pública, já que não há recursos para oferecer todos os tratamentos a todos, deveríamos priorizar tratamentos mais baratos que salvam mais vidas e/ou melhoram a qualidade de vida de uma quantidade maior de pessoas.

 

Ricardo Amorim é apresentador do Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ, presidente da Ricam Consultoria, único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do Speakers Corner e economista mais influente do Brasil segundo o Klout.com.Perfil no Twitter: @ricamconsult.

 
 





    Dr. Odonto disse:
    10 de abril de 2015 às 18:57

    Acredito que a saúde bucal dos brasileiros esta em um nível ainda mais baixo, totalmente abandonada pelo governo e as empresas privadas tem o grande desafio de acompanhar a tecnologia, com poucos recursos; pois a cultura ou a necessidade dos brasileiros é ir a um dentista em último caso.



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