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Entrevista de Ricardo Amorim à Federação das Indústrias do Estado do Paraná sobre como reverter a desindustrialização

postado em Entrevistas


09/2014

FIEP

 
1 – Vivemos um momento de muita apreensão em relação à economia do nosso país. Enquanto países que sofreram com a crise econômica de forma muito intensa começam a dar mostras de crescimento, o Brasil amarga resultados muito abaixo do esperado no PIB e demonstra dificuldade no controle da inflação. Na sua avaliação, o que podemos esperar da economia para 2015? Quais são os desafios que o presidente eleito em outubro deverá enfrentar?
 
Infelizmente, 2015 também deve ser um ano difícil. A inflação não está apenas mais elevada, está grávida. O dragãozinho dos preços controlados pelo governo nasce após as eleições. Há mais de um ano, os preços de ônibus, metrô, gasolina, energia elétrica e outros têm sido represados para conter a inflação e as manifestações de rua. Estes preços terão de ser realinhados para evitar o colapso dos serviços e contas públicas.
Só a diferença entre o preço internacional do petróleo e os preços nacionais de seus derivados custa à Petrobrás mais de R$ 40 bilhões anuais. A utilização de usinas termoelétricas para geração de energia elétrica custará de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões só neste ano, e mais ainda em 2015. A renúncia fiscal com a desoneração de salários custará mais R$ 24 bilhões só em 2014. O ajuste das contas públicas é inevitável. Ele virá através de elevação de preços, corte de gastos do governo ou aumento de impostos, provavelmente os três.
Os reajustes pressionarão a inflação, forçando o Banco Central a aumentar ainda mais os juros, que já estão no nível mais alto desde 2011, limitando o crédito e reduzindo o crescimento econômico. Aumentos de impostos e redução de gastos do governo devem retirar dinheiro da economia em 2015, também limitando o crescimento.

Se arrumarmos a casa em 2015, podemos retomar um ciclo de crescimento mais acelerado a partir do final do ano que vem. Isto dependerá das medidas econômicas adotadas até lá, o que por sua vez, dependerá em grande medida dos resultados das eleições, que após o falecimento de Eduardo Campos são mais incertos do que nunca.

 

2 – Nós buscamos nos últimos períodos um modelo de desenvolvimento altamente focado no mercado interno e baseado no crescimento da renda da população, com foco na classe médica. Quando este crescimento já não era tão expressivo, o caminho foi a oferta de crédito para sustentar o consumo. Hoje, qual a melhor estratégia em sua opinião, diversificar os mercados ou é possível confiar em uma retomada do poder de compra?
 
Nosso modelo de desenvolvimento está esgotado e precisa ser mudado. Decepcionante. Nos últimos anos, o crescimento brasileiro baseou-se no crescimento da classe média e seu potencial de consumo. A expansão do consumo de massas em si é muito benéfica em termos econômicos e sociais. O problema é que ela não pode ser a única base de crescimento do país e tem sido. Se um país só estimula o consumo e não estimula a produção, acaba acontecendo um desequilíbrio entre forte crescimento da procura por produtos e serviços e crescimento menor da oferta destes produtos e serviços. O resultado é menor crescimento econômico, pressão inflacionária e piora da balança comercial devido a forte aumento das importações. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil.

Infelizmente, desde 2011, o crescimento econômico tem decepcionado ano após ano e neste ano não tem sido diferente. Há um ano e meio, a maioria dos analistas acreditava que o PIB poderia crescer pelo menos 4% neste ano. A estas alturas, sabe-se que o crescimento será nulo. Na economia, o vexame tem sido pior do que foi na Copa. O Brasil está tomando de 7 a 0, neste ano. A inflação está em quase 7% e o crescimento do PIB será próximo de 0%.

Isto não quer dizer que não haja oportunidades. Quando o pessimismo reina, a maioria se retrai, a concorrência diminui e as grandes chances aparecem. A mãe das oportunidades são os problemas. A lagarta não escolhe virar borboleta. Ela se transforma porque não tem escolha. Além disso, mesmo em uma economia que vai mal, há setores e regiões que prosperam.

Por outro lado, é inevitável uma mudança do modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, favorecendo a produção, independentemente de quem ganhar as eleições. A própria presidente Dilma já reconheceu a necessidade de mudança. Na prática, isto significa que o próximo governo deveria estar focado em reduzir a carga e simplificar a legislação tributária, reformar nossas leis trabalhistas, melhorar nosso ambiente de negócios, reduzindo burocracia e estimulando investimentos privados, aumentar os investimentos em infraestrutura e melhorar a qualidade da educação. Para que tudo isso seja possível, o governo deveria cortar seus gastos para liberar recursos.

 

3 – Uma das principais dificuldades enfrentadas pelo setor produtivo é a mão de obra. Conversando com industriais, muitos comentam a preferência, sobretudo dos jovens, pelo setor de serviços, mais atrativo pela limpeza dos ambientes e pela descontração da rotina. O que fazer para aproximar os jovens da indústria?
 
Na minha opinião, a indústria não perdeu a capacidade de atrair profissionais para os setores de serviço e comércio tanto pelo ambiente de trabalho, que eu considero que foi uma razão secundária, mas primordialmente porque teve um desempenho econômico muito inferior a estes setores nos últimos anos. Desde 2004, as vendas do varejo, por exemplo, cresceram mais do que a produção industrial. Para completar, os setores de serviços, onde a concorrência externa é muito mais limitada, quando existe, tem conseguido repassar para os preços os aumentos de custos de mão de obra, aluguéis e matérias primas, coisa que a indústria não tem conseguido por conta da crescente competição com produtos chineses e, após a crise de 2008, americanos e europeus. Em resumo, o setor de serviços foi muito mais lucrativo do que o setor industrial nos últimos dez anos e, por isso, pode atrair talentos, oferecendo melhores salários e perspectivas de carreira. Para que a indústria readquira sua capacidade de atração de talentos, ela precisa voltar a crescer em ritmo acelerado, o que não acontece desde 2008 por conta da maior competição vinda dos países ricos desde então. Com a queda do consumo, salários e custo de produção, a produção da indústria dos países desenvolvidos ficou mais competitiva, ao mesmo tempo que estes países tem direcionado partes crescentes de sua produção para consumo nos grande s países emergentes, como o Brasil.

Exatamente para lidar com este problema, o próximo governo precisa focar no estímulo à produção. País nenhum pode eternamente consumir mais do que produz, mas há dez anos, o crescimento do consumo no Brasil tem sido maior do que o da produção.

Em resumo, é equivocada a ideia de que as dificuldades da indústria brasileira vêm de um real excessivamente valorizado. Baseado nesse diagnóstico errôneo, o governo tem tentado “ajudar” a indústria, desvalorizando o real, reduzindo impostos de forma seletiva e aumentando impostos de importação. Os resultados? A produção industrial é hoje menor do que era em 2008, a inflação se acelerou e os produtos no Brasil são os mais caros do mundo. A taxa de câmbio valorizada é consequência da política econômica desequilibrada do país e colabora para as dificuldades da indústria, mas as causas estruturais dos problemas da indústria são os altos impostos, nossas leis trabalhistas, nosso ambiente de negócios, a falta de investimentos em infraestrutura e qualificação da mão de obra.

 

4 – Outro ponto sensível para os jovens seria o uso da tecnologia. Crescendo já conectados ao smartphone muitos têm dificuldades para lidar com atividades mais repetitivas e, igualmente, para manter a concentração por longos períodos de tempo. A indústria tem como criar ambientes mais atraentes, que possibilitem usar essas características a favor do seu desenvolvimento? De que maneira isso pode ser realizado?
 
Dois fatores que permitiram que o Brasil avançasse 2,5 vezes mais rápido entre 2004 e 2010 do que antes se esgotaram: incorporação de mão de obra e maior utilização da infraestrutura já existente. Desde 2003, quase 20 milhões de brasileiros sem emprego passaram a trabalhar, colaborando com a produção. O desemprego caiu de 12% para 5%. Não cairá mais. Aliás, o total de empregos nas principais capitais é que vem caindo ao longo deste ano.
Isto significa que só poderíamos crescer como antes acelerando a produtividade, o que exigiria trabalhadores melhor preparados e equipados. Isto exige muito investimento em educação e treinamento, mas também em máquinas, equipamentos e tecnologia.

Para retomarmos a competividade, e sustentarmos um crescimento mais rápido, só investindo muito em qualificação de mão de obra, máquinas, equipamentos e infraestrutura. A China, que cresce 3 a 4 vezes mais rápido que o Brasil, investe em sua infraestrutura, a cada ano, o equivalente a todo o estoque de infraestrutura existente no Brasil.

 

5 – Em julho, durante a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o ministro José Henrique Paim reconheceu a necessidade de se promover um “casamento” maior entre as universidades e a indústria, afirmando que as universidades precisam desenvolver para o setor produtivo e que as empresas também precisam buscar mais as universidades, citando o exemplo norte-americano. No entanto, diferente dos EUA, no Brasil temos várias restrições quanto a patentes e royalties de produtos desenvolvidos por universidades públicas. Como o senhor avalia essa situação? Qual a saída para universidade e indústria trabalharem juntas?
 
A legislação e a mentalidade por trás dela precisam mudar, e rápido. A ideia de que um aproximação entre a universidade  e o setor privado representa um desvirtuamento do objetivo das universidades não só é errada, mas é altamente nociva ao desenvolvimento do país e à própria qualidade da educação. Para melhorar a educação no Brasil, precisamos aproximá-la das necessidades do mundo real e isto só é possível com uma interação entre as universidades e quem contrata. Da mesma forma, uma mudança de nossa lei de patentes e royalties permitiria que as universidades tivessem acesso a novas fontes de financiamento e que as empresas tivessem acesso a pesquisas que ajudariam a tornar a economia brasileira mais competitiva.

 

6 – A inovação é um tema muito atual e muito discutido. Mas, em geral, quando se fala em inovação a discussão é direcionada para o investimento, para a modernização. Fica um pouco de lado o processo criativo humano que sustenta mudanças realmente importantes e que trazem resultados. Como descobrir e valorizar esses talentos? E mais, como mantê-los no país?
 
A única forma de voltarmos a crescer mais é aumentando muito os investimentos produtivos no país, começando pelos investimentos em infraestrutura e aumentando a produtividade dos trabalhadores brasileiros, investindo em educação, treinamento e inovação. O trabalho de descoberta e valorização de talentos tem de ser feito por cada empresa e passa por reconhecimento financeiro e não financeiro destes talentos, além de oferecer a eles desafios condizentes com suas habilidades.

Do ponto de vista do país, a principal tarefa para manter os talentos no país é gerar oportunidades para eles, o que só é possível retomando um ritmo de crescimento mais acelerado. De 2004 a 2010, centenas de milhares de brasileiros que moravam e trabalhavam na Europa, EUA e Japão retornaram ao país, atraídos por melhores oportunidades. Nos últimos, com a desaceleração econômica o processo inverteu-se. Um fator que nos ajuda neste processo de atração de talentos, não só de brasileiros, mas também de estrangeiros é o mau desempenho econômico recente dos países desenvolvidos em geral e, particularmente na Europa. Na Grécia, por exemplo, 85% dos jovens de 18 a 25 anos estão sem emprego. Na Espanha, Itália, Portugal e Irlanda, esta porcentagem é apenas um pouco mais baixa, o que facilita muito para nós a atração de talentos destes países.

 

7 – Outro ponto sensível para o desenvolvimento da indústria é a produtividade dos funcionários. Em abril, uma reportagem da revista The Economist destacou a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, afirmando que esse é um dos principais entraves ao crescimento. O senhor concorda com essa afirmação? Quais fatores são responsáveis por essa baixa produtividade?
 
A produtividade média do trabalhador americano é hoje 5 vezes a do trabalhador brasileiro. Em outras palavras, para executar a mesma função, você pode contratar um americano ou 5 brasileiros. A razão mais óbvia para isso é a melhor qualidade da educação por lá, mas tão importante quanto isso é o fato do trabalhador americano estar muito melhor equipado que o brasileiro. Para executar seu trabalho, ele conta com uma série de ferramentas, máquinas, software e hardware que o brasileiro não conta. Mal comparando, um agricultor com um trator produz mais do que 5 vezes mais do que 5 trabalhadores cada um deles com uma enxada. Precisamos automatizar e mecanizar a economia brasileira, mas isto tem de acontecer em paralelo a um aumento da qualificação da mão de obra. Voltando ao meu exemplo, não basta apenas comprar um trator para um dos 5 trabalhadores que mencionei se ele não souber usar o trator.

 

8 – Outro ponto essencial para a indústria é a alta carga tributária, que reduz investimentos e toma uma boa parte dos recursos. Temos chances reais de uma reforma tributária que possa beneficiar as empresas? Da perspectiva das leis trabalhistas, são necessárias modificações? Qual o papel da indústria para fazer com que essas mudanças aconteçam?
 
Entre 156 países emergentes, o Brasil é o 3º com maior carga tributária e está longe de ser o 3º com melhores serviços públicos, o que significa que precisamos não apenas simplificar a legislação tributária, mas também reduzir a carga de impostos. Infelizmente, só será possível reduzir a carga tributária se o governo reduzir seus gastos e é aí que eu acho que o papel da indústria e de todo o empresariado brasileiro é fundamental. Nos últimos anos, ao invés de fazer uma reforma tributária, o governo fez vários remendos tributários, com redução temporária de impostos para subsetores em dificuldades. Na prática, ele criou condições mínimas de sobrevivência nestes subsetores, sem resolver as verdadeiras causas das dificuldades dos setores. Ao fazer isto, ele minou a capacidade dos empresários deste subsetores em exigirem uma verdadeira reforma tributária, à medida que os empresários ficaram reféns destas falsas benesses do governo. Em outras palavras, um Brasil Maior, para usar um dos termos usados pelo próprio governo, exige um governo menor, que não chantageie o setor empresarial e que, gastando mesmo permita que a reforma tributária possa acontecer. A Indústria e os demais setores precisam se unir e exigir isto do próximo governo, incluindo aliás uma reforma trabalhista que reduza os custos trabalhistas e, por consequência permita mais geração de empregos, maiores salários e melhores resultados para as empresas. Hoje, para cada R$2,00 que o trabalhador custa à empresa, menos de R$1,00 chega ao bolso do trabalhador. Eu imagino qual seria o trabalhador que se pudesse optar por ganhar o dobro em troca de perder os atuais direitos trabalhistas não faria esta opção. Em resumo, os empresários precisam mostrar à opinião pública que a reforma trabalhista não é só de interesse deles, mas também dos próprios trabalhadores.

 

Ricardo Amorim é apresentador do Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ, presidente da Ricam Consultoria, único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do Speakers Corner e economista mais influente do Brasil segundo a revista americana Forbes.

Perfil no Twitter: @ricamconsult.
 
 





    Paula disse:
    21 de setembro de 2015 às 15:14

    Acertou em cheio, 2015 está sendo muito pior do que 2014 e se Dilma não sair do poder provavelmente 2016 será pior ainda



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