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Entrevista de Ricardo Amorim à Revista Empresário: “A economia vai piorar antes de melhorar, mas pela primeira vez em cinco anos, podemos terminar o ano melhor do que começamos e com perspectivas melhores para os próximos anos.”

postado em Entrevistas


02/2015

Revista Empresário

RICARDOAMORIM62

Créditos ao Ricardo Correa
 
Atualmente, a reestruturação econômica do Brasil está em pleno vapor. O que você espera de ações para 2015?
 
Espero que elas corrijam uma série de desequilíbrios que se formaram principalmente nos últimos quatro anos. Infelizmente, 2015 será mais um ano difícil, provavelmente com uma pequena queda do PIB. Os ajustes necessários são dolorosos. Como um doente que tem câncer e precisa passar por uma quimioterapia, antes de nos sentirmos melhor, vamos nos sentir ainda pior do que antes por conta dos efeitos colaterais do tratamento.
 
O ajuste das contas públicas, por exemplo, é inevitável, mas o aumento de impostos e o corte de gastos públicos são inicialmente recessivos, retirando dinheiro da economia em 2015, também limitando o crescimento.
 
No entanto, se arrumarmos a casa em 2015, retomando a confiança de empresários e consumidores, podemos retomar um ciclo de crescimento mais acelerado no final do ano e nos anos seguintes. Em resumo, vai piorar antes de melhorar, mas pela primeira vez em cinco anos, podemos terminar o ano melhor do que começamos e com perspectivas melhores para os próximos anos.
 
 A nova equipe econômica do governo federal tem sido o assunto em foco. Qual é a sua opinião sobre esse anúncio da presidente Dilma Rousseff?
 
Ela é a potencial salvação do governo Dilma. Havia uma necessidade clara de mudança de modelo de política econômica. A questão crucial é se a Presidente deixará a equipe econômica adotar as medidas que são necessárias
 
 A ‘minirreforma previdenciária’ anunciada pelo governo federal é uma solução em curto, médio e/ou longo prazos para retomar o crescimento do País? Por quê?
 
A ‘minirreforma previdenciária’ faz parte de uma agenda de medidas voltadas a fortalecer as contas públicas e, ao mesmo tempo, corrigir alguns outros desequilíbrios e abusos da economia brasileira. Assim, com o endurecimento das regras para pensões, por exemplo, o governo busca também coibir casos cada vez mais comuns de idosos que se casavam com jovens apenas para garantir-lhes pensões vitalícias.
 
 Quanto à inflação, o cenário geral apresentado atualmente é preocupante. Quais são as perspectivas para o controle da inflação durante o ano?
 
A inflação não está apenas elevada, está grávida. O dragãozinho dos preços controlados pelo governo nasce agora, após as eleições. Há anos, os preços de ônibus, metrô, gasolina, energia elétrica e outros têm sido represados para conter a inflação e as manifestações de rua. Estes preços terão de ser realinhados para evitar o colapso dos serviços e contas públicas.
 
Só a diferença entre o preço internacional do petróleo e os preços nacionais de seus derivados custava à Petrobrás mais de R$ 40 bilhões anuais até o ano passado. A utilização de usinas termoelétricas para geração de energia elétrica custará de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões só neste ano. Os reajustes pressionarão a inflação, forçando o Banco Central a aumentar ainda mais os juros, que já estão no nível mais alto desde 2011, limitando o crédito e reduzindo o crescimento econômico. Ainda assim, a inflação deve se manter elevada, provavelmente permanecendo próxima a 7% e, possivelmente, chegando até a casa dos 8% no caso do IPCA.
 
 Nesse contexto, como o senhor avalia o impacto nos setores de comércio, serviços e indústria?
 
As expectativas para os setores de comércio e serviços são bem piores do que eram até 2012, mas bem melhores do que para a indústria. A desaceleração econômica tem atingido todos os setores e em 2015 não deve ser diferente, mas ao contrário da indústria que sofre concorrência direta com produtos estrangeiros, boa parte dos setores de serviços e comércio está blindada da concorrência externa e, por isso, tem um desempenho melhor. Exatamente por isso, desde 2004, em todos os anos sem exceções, o crescimento dos setores de comércio e serviços foi maior do que o da indústria e em 2015, não deve ser diferente.
 
 A crise hídrica é outro aspecto que abala a economia do País. Que alternativas podem solucionar o problema em sua opinião? E quais medidas poderiam ter sido adotadas para evitá-lo?
 
Um racionamento brando de água e energia elétrica deveria ter começado no ano passado, forçando empresas e pessoas a reduzirem o consumo de água e energia. No entanto, como era um ano eleitoral, não só isto não aconteceu, mas tanto o governo federal quanto os estaduais esconderam a gravidade do problema, fazendo com que empresas e pessoas físicas não se preparassem para lidar com ele. Por isso, o ajuste agora terá de ser muito mais radical, com consequências muito mais drásticas. No caso do setor elétrico, há outra causa ainda mais grave. A crise atual foi causada em grande medida pela desastrada tentativa do governo de reduzir o preço da energia no Brasil, que reduziu sensivelmente a rentabilidade no setor, levando a redução de investimentos em geração e transmissão de energia, que se tivessem ocorrido, teriam nos deixado em uma situação muito mais confortável agora.
 
O iminente risco de ‘apagão’ em várias regiões do Brasil é outro ponto muito discutido atualmente e que interfere na economia do Brasil. Qual é a sua opinião sobre a ineficiência energética no País? As medidas adotadas pela equipe econômica, como a definição de taxas/margens de consumo, podem solucionar o problema?
 
As medidas que estão sendo propostas agora, como tantas que vêm sendo adotadas nos últimos anos no país, são meros paliativos que lidam com as consequências dos problemas que estamos vivendo, mas não com suas causas. Por exemplo, uma melhora da regulamentação do setor elétrico seria fundamental para que vários projetos de investimento que foram engavetados nos últimos anos pudessem se transformar em realidade, evitando que nos próximos anos continuemos a lidar com os mesmos problemas no setor elétrico que estamos vivendo agora.
 
Nesse ritmo que a economia nacional está, como você avalia o Brasil para os próximos 5 e 10 anos?
 
Temos de separar 2015 dos anos seguintes. O desempenho da economia em 2015 será péssimo. A questão é se faremos ou não os ajustes necessários para que os anos seguintes sejam melhores, possivelmente muito melhores. Ainda não temos uma resposta a esta questão. Por um lado, a nova equipe econômica tem o diagnóstico correto. Por outro, o apoio político, tanto por parte da Presidente quanto do Congresso à adoção das duras medidas necessárias, parece longe de garantido.
 
Quando comparada ao cenário internacional, qual é a expectativa para a economia brasileira no futuro?
 
Ainda muito ruim em 2015, talvez melhor nos anos seguintes. Ao longo do primeiro mandato do governo Dilma. Entre 183 países, o Brasil ficou apenas em 163º lugar em crescimento da renda per capita. Fomos o país que menos cresceu em toda a América Latina nesses quatro anos e a América Latina só não cresceu menos do que a Europa neste período. Aliás, nos últimos quatro anos, o Brasil só não cresceu menos do que países europeus em crise e países africanos em guerra civil. Por isso, é tão grande a necessidade de ajustes profundos e mudanças que alavanquem a competividade da economia brasileira, incluindo redução da carga e simplificação das legislações tributária e trabalhista, aumento de investimentos em infraestrutura, melhora da qualificação da mão de obra, investimentos em mecanização da produção no Brasil, entre outras.
 
Ricardo Amorim é apresentador do Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ, presidente da Ricam Consultoria, único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do Speakers Corner e economista mais influente do Brasil segundo a revista americana Forbes.
 
Perfil no Twitter: @ricamconsult.
 
 





    Sergio disse:
    24 de março de 2015 às 15:14

    Ajustes baseados em aumento de impostos não é ajuste. Imagine o sujeito, perdulário, que gasta mais do que recebe, e para corrigir suas finanças ao invés de gastar menos decide aumentar o próprio salário.

    Foi isso que o governo fez.

    Enquanto a carga tributária sufocar o investimento no BRasil, não vejo saída. Precisamos de estado mínimo.



    Daniel disse:
    25 de março de 2015 às 14:19

    Impressionante como ninguém associa o desempenho econômico com a cultura do povo brasileiro.



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