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Entrevista de Ricardo Amorim à Revista Expansão.

postado em Entrevistas


Revista Expansão

09/2012

 

Dono de uma ampla visão internacional, o economista Ricardo Amorim projeta que, passados os efeitos da crise europeia, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro voltará a crescer em torno de 5% ao ano, como ocorria anteriormente a este problema. Mais ainda, ele afirma que o crescimento da economia brasileira está muito mais ligado a fatores macro – como os cenários internacionais – do que a medidas políticas. Indo um pouco mais além, ele prevê que há oportunidade da renda per capita do brasileiro tornar-se maior que a do norte-americano dentro de alguns anos. “Mas é preciso saber aproveitar estas oportunidades”,sentencia o único brasileiro incluído na lista do Speakers Corner, dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais.

 

Confira aqui a entrevista de Amorim, que também é consultor e apresentador do Programa Manhattan Connection, da Globonews e colunista da revista IstoÉ. Pós-graduado em Administração e Finanças Internacionais pela Essec de Paris, ele atua no mercado financeiro desde 1992, e já trabalhou em Nova Iorque e Paris. Atualmente é presidente da Ricam Consultoria, de São Paulo (SP), que assessora clientes a antever tendências globais e brasileiras. Dentro deste perfil, já prestou consultoria para empresas como Banco do Brasil, Bradesco, Bob’s, Braskem, Danone, Electrolux, Gerdau e Unilever.

 

Os negócios 2.0
Além das constatações do economista sobre aspectos macro da economia, ele observa ainda os movimentos de mercado. Para Amorim, em função da desaceleração da indústria nacional e do crescimento do setor de serviços – somados, claro, à alta carga tributária – a situação tem se tornado um terreno fértil para a proliferação dos negócios 2.0, ou seja, formato de empreendimento desenvolvido através da plataforma web. Segundo o economista, embora este seja um campo promissor, ainda é preciso ter cuidado pois a política econômica equivocada está transferindo os compradores brasileiros para fora do país. O fato afeta setores tradicionalmente protegidos e debilita não somente a indústria, mas os setores de comércio e serviços brasileiros.

 

Mercosul
Amorim defende também sua opinião sobre o Mercosul. Ele acredita que o bloco econômico se tornou, há tempos, um entrave para o desenvolvimento, ao invés de ser um facilitador. Neste caso, ao invés de incentivar o livre comércio, está ocorrendo justamente o contrário. E critica abertamente a Argentina, que desrespeita frequentemente as regras do bloco sem sofrer medidas retaliatórias de nenhum dos outros países. Em outras palavras, o bloco tornou-se um gargalo ao comércio exterior.

 

Para o Brasil, o que mais influencia: a crise argentina, pela proximidade geográfica, ou os altos e baixos da economia dos Estados Unidos afetam mais o cenário nacional?
Ricardo Amorim – Do ponto de vista de impacto na balança comercial brasileira, a magnitude dos impactos é similar, uma vez que a parcela de nossas exportações que vai para os Estados Unidos e para a Argentina é equivalente. Por outro lado, as oscilações da economia americana têm dois impactos adicionais que a crise na Argentina não chega a ter. Em primeiro lugar, altos e baixos da economia americana têm impactos significativos sobre a demanda global e, por consequência, sobre uma série de matérias-primas que o Brasil exporta. Além disso, o desempenho da economia americana é um dos fatores determinantes da aversão ou tolerância a risco de investidores em todo mundo e, por consequência, da disponibilidade de crédito externo para o país, o que, por sua vez, influencia a disponibilidade de crédito no Brasil.

 

Frente aos problemas argentinos e às barreiras impostas a produtos brasileiros, como fica o Mercosul? Você acredita que o bloco econômico ainda pode ser produtivo para seus países?
Ricardo Amorim – Infelizmente, acredito que, há tempos, o Mercosul se tornou mais um entrave para nosso comércio exterior do que um facilitador. Repetidamente, a Argentina desrespeita as regras do Mercosul sem que o Brasil ou demais países do bloco tomem medidas retaliatórias mais sérias. Além disso, o Mercosul tem sido sistematicamente usado como desculpa para impormos tarifas de importações mais elevadas sobre produtos vindos de qualquer outro país que não faça parte do bloco. Como ele é um bloco bastante pequeno, ao invés de facilitar o livre comércio, na prática, ele está fazendo exatamente o contrário da proposta.

 

Por que empresas de médio e pequeno portes insistem em exportar,se existe um mercado consumidor gigantesco no Brasil? À exceção das exportadoras de commodities, o comércio exterior ainda pode ser lucrativo à indústria?
Ricardo Amorim – Cada caso é um caso e há, sim, diversas situações onde as exportações têm se mostrado atraentes. Na realidade, a maioria das empresas não deveria optar por exportar ou suprir o mercado interno, mas fazer as duas coisas simultaneamente. Diversificando seus clientes, elas estariam menos vulneráveis a momentos de dificuldades, seja nas vendas para o mercado externo ou interno.

 

Se o Brasil tivesse um boom nas exportações, provavelmente haveria um grande problema logístico, como apagão nos portos e falta de infraestrutura rodoviária. Dentro deste panorama, ainda temos chance de crescimento no mercado externo?
Ricardo Amorim – Falta de infraestrutura logística é hoje o principal gargalo brasileiro para expandir nossa corrente de comércio exterior e deverá continuar a ser o desafio por alguns anos. Por outro lado, se os investimentos públicos e privados que hoje já estão programados se concretizarem, esta realidade deve começar a mudar em meados desta década e tornar-se significativamente diferente até o final dela.

 

Hoje se fala muito que o Brasil está em alta no mercado internacional. Como está o cenário econômico brasileiro e por que ele pode ser promissor, mesmo em meio à dificuldades?
Ricardo Amorim – É importante separar o cenário para o segundo semestre deste ano e, talvez, o primeiro semestre do ano que vem – que não são bons – do cenário para esta e, possivelmente, a próxima década, que são muito favoráveis. No curto prazo, a crise da Europa continuará a ter impactos negativos significativos sobre a economia mundial e o Brasil, provavelmente seguirá limitando o crescimento do PIB brasileiro neste ano a cerca de 1%. Aliás, ninguém deveria se surpreender com isso, conforme expliquei em meu artigo Crônica de uma decepção anunciada, publicado no ano passado, quando o governo e economistas ainda esperavam um crescimento muito mais acelerado. Por outro lado, passado o auge
da crise europeia, o Brasil deve retomar um crescimento médio do PIB próximo a 5% ao ano, que tem sido a média desde 2004.

 

Para onde está caminhando a economia brasileira? Quais os setores que estão melhores atualmente e quais os mais prejudicados no cenário atual? E por que este desempenho?
Ricardo Amorim – No curto prazo, os setores mais dependentes da demanda interna, particularmente serviços e comércio, devem sustentar um desempenho superior aos demais. A médio e longo prazos, os setores mais dependentes em expansão de crédito interno, como construção, e aqueles dependentes da demanda da China e da Índia, como os setores exportadores
de matérias-primas e alimentos, devem se juntar a eles também.

 

Quais as principais semelhanças e diferenças econômicas entre Brasil e China? Podes traçar um paralelo?
Ricardo Amorim – Ambos são países emergentes com populações grandes e nível de renda médio. Nos últimos dez anos, a China foi o país cujo PIB mais cresceu; o Brasil foi o terceiro. Por outro lado, a economia chinesa ainda hoje é predominantemente rural, com 50% da população ainda morando no campo. Enquanto a China está passando pelo processo
de urbanização e industrialização que o Brasil passou a partir da década de 50, o Brasil está hoje no estágio vivido pelos Estados Unidos após os anos 50, de passagem de uma economia industrial para uma economia de serviços. Além disso, há uma complementariedade importante porque a China tem uma enorme necessidade de matérias-primas e o Brasil é um mega exportador destes produtos.

 

Com o aumento do crédito das classes C e D, o mercado interno tende a crescer de forma real, ou tende a vender mais os importados chineses?
Ricardo Amorim – O crescimento do mercado interno brasileiro beneficia tanto a produção nacional quanto os importados da China e outros países.Uma coisa não exclui a outra.

 

Neste cenário, como ficam os produtos de valor agregado? Pode-se dizer que temos setores com os dias contados?
Ricardo Amorim – De jeito nenhum. O desafio para o Brasil é aproveitar um cenário que deve se sustentar ainda por muitos anos, onde os setores de produtos básicos serão mais beneficiados e, ao mesmo tempo, se tornar mais produtivo em produtos de alto componente tecnológico, de valor agregado que, em algum momento, voltarão a ter mais destaque. Para isso, precisamos melhorar a qualidade de nossa educação, investir mais em pesquisa e construir um ambiente de negócios mais favorável, reduzindo a burocracia e a carga tributária existentes na atualidade.

 

O corte de juros por parte dos bancos não deve causar uma demanda difícil de ser atendida? Ou não há este risco?
Ricardo Amorim – Não acredito. A queda de juros está acontecendo de forma apenas gradual, assim como o próprio crescimento da oferta de crédito no Brasil. As coisas andam juntas. Isso não sinaliza uma sobrecarga.

 

Quais os setores mais promissores para investimentos atualmente no mercado de capitais? E por que?
Ricardo Amorim – Depende do horizonte do investimento. A médio e longo prazos, alguns dos setores que passaram por mais dificuldades ultimamente e, por consequência cujos preços de ações mais caíram, devem ser os líderes em valorização, da mesma forma que em 2009. Neste sentido, em particular merecem destaque os setores siderúrgico e de
construção. As bolsas da Europa fecharam em baixa hoje (12 de agosto de 2012) em função da situação da Grécia e Espanha. De que forma isso afeta o Brasil? Nos próximos meses, continuará a ser a situação europeia que definirá o comportamento das Bolsas de Valores tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Como é muito provável que a crise na Europa ainda piore, conforme expliquei nos artigos Tormenta à Vista, Interdependência ou Morte e outros, é provável que a Bolsa ainda passe por quedas adicionais antes de sustentar uma alta forte.

 

E nos Estados Unidos, qual o atual cenário do mercado de capitais? Favorável ou não?
Ricardo Amorim – Contaminação pela crise europeia. A economia norte-americana já vem perdendo força. Impactos adicionais negativos da crise europeia, incertezas provocadas pelas eleições presidenciais e US$ 600 bilhões de dólares programados em aumentos de impostos até o final do ano devem levá-la a se desacelerar e, por consequência, a Bolsa norte-americana a ter um desempenho ruim.

 

Qual sua previsão para a economia brasileira nos próximos dez anos? Quais as mudanças?
Ricardo Amorim – Qualquer previsão neste horizonte está totalmente dependente da sustentação do crescimento chinês, que enfrentará uma série de obstáculos importantes. Ao contrário do que reivindicam alguns, nossa ascensão econômica não aconteceu por méritos deste ou daquele político. Melhoras semelhantes ocorreram em dezenas de outras economias no mesmo período. A explicação é uma transformação muito mais ampla e menos sujeita aos caprichos dos políticos. Ao entrar na Organização Mundial do Comércio em dezembro de 2001, a China condenou o Brasil e vários outros países em
desenvolvimento a emergirem. Este evento provocou uma forte e sustentada elevação dos preços de matérias-primas que exportamos, enquanto reduziu o preço de inúmeros produtos industrializados e do capital que importamos, favorecendo consumo e investimento por aqui e em muitos países emergentes. A mudança foi tão grande que hoje, para se ter uma ideia, entre os dez países com renda per capita mais elevada, metade é exportador de matérias-primas.

 

Então dependemos de fatores externos?
Ricardo Amorim – As forças que impulsionaram a economia mundial na última década, possivelmente, continuarão ao longo desta, o que sustentará nosso processo de desenvolvimento, apesar de solavancos esporádicos, como o que deve ocorrer este ano devido à crise europeia. Não deixemos a decepção de 2012 nublar as perspectivas do que esta década pode trazer. Se as tendências de crescimento econômico e cambiais dos últimos nove anos em todo mundo continuarem iguais, antes da Copa do Mundo, nossa distribuição de renda será melhor do que a dos Estados Unidos. No final da década, seremos a terceira economia mundial, nossa renda per capita avançará mais 21 posições. Um ano depois, em 2021, nossa renda per capita será maior do que a dos americanos. Mas nada disso está garantido. Oportunidade não é destino. Deveríamos nos preocupar em criar as condições para que este desenvolvimento potencial se torne realidade. Como já cantou o poeta: ‘quem sabe faz a hora, não espera acontecer’.

 

E quanto às exportações brasileiras, o que você prevê para a para a próxima década? Temos perspectiva de crescimento?
Ricardo Amorim – O cenário é igualmente recheado de oportunidades, mas dependente do bom desempenho da economia chinesa.

 

As importações, principalmente as oriundas da China, continuarão crescendo? Ou há tendência de queda?
Ricardo Amorim – Certamente crescerão. Aliás, não são só as importações da China que crescerão. Para estimular suas economias, Europa, Japão e Estados Unidos terão de emitir quantidades nunca antes vistas de moeda ao longo desta década. A consequência é que o dólar, o euro, a libra esterlina, o franco suíço e o iene vão se desvalorizar de forma significativa em relação às moedas dos países emergentes ao longo da década. Por consequência, as exportações destes países vão crescer.

 

A China continuará em crescimento, tendendo a se tornar ‘o centro do mundo’ ou não?
Ricardo Amorim – Acho que nesta década teremos dois centros do mundo: China e Estados Unidos. Não acredito que os Estados Unidos deixarão de serem importantes, mas a relevância da China será cada vez maior.

 

O valor do dólar frente ao real vem caindo há anos. Qual o valor ideal para exportadores?
Ricardo Amorim – Para os exportadores, quanto mais fraco o real e mais valorizado o dólar, melhor. Por outro lado, pior para os consumidores brasileiros, que pagarão produtos cada vez mais caros. Fato é que nos próximos meses deve ocorrer uma alta do dólar, impulsionada pela piora da crise europeia e maiores remessas de lucros de empresas norte-americanas e europeias instaladas no Brasil para o exterior. Passado o ápice da crise, este movimento vai se reverter e o dólar deve cair a novas mínimas nos próximos anos.

 

Com a alta carga tributária brasileira, o ambiente está mais propício aos negócios 2.0 (formato de empreendimento relacionadoàs novas mídias digitais)? Como forma de reduzir custos?
Ricardo Amorim – A alta carga tributária é um problema seríssimo que impacta negativamente toda economia brasileira e que deve, sim, estimular os negócios 2.0. Em julho deste ano, fui a Nova Iorque (EUA) realizar algumas palestras e visitar alguns clientes. Entrei também em alguns estabelecimentos comerciais e fiquei chocado com a quantidade de brasileiros comprando. Políticas econômicas equivocadas estão exportando nossos consumidores. Os desafios da nossa indústria, claro, são muitos, começando pela concorrência com produtos chineses e passando pela contração de mercados de consumo nos Esatdos Unidos e na Europa e, consequentemente, excesso de capacidade industrial instalada no mundo após a crise de 2008. E não deveria surpreender a ninguém que foi o setor com pior desempenho na economia nos últimos anos. O setor de serviços, em geral, vem crescendo. A novidade que percebi nas lojas de Nova Iorque é que os efeitos maléficos da carga tributária sobre a competitividade e o crescimento brasileiro atingem, cada vez mais, setores tradicionalmente protegidos, onde não havia competição internacional. Maior facilidade de transporte e avanços do comércio eletrônico permitem que produtos antes adquiridos na lojinha local sejam agora comprados em qualquer lugar do planeta.

 

Ricardo Amorim é economista, consultor, apresentador do programa Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ e presidente da Ricam Consultoria (www.ricamconsultoria.com.br). Realiza palestras em todo mundo sobre perspectivas econômicas e oportunidades em diversos setores e é o único brasileiro incluído na lista do Speakers Corner dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais.





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