Entrevista de Ricardo Amorim ao jornal Brasil Econômico sobre medidas cambiais.

Jornal Brasil Econômico
04/2012
Por Elaine Cotta, Flávia Furlan, Naiara Bertão e Rui Barata Neto

 

Quero ser Guido Mantega

Oque os críticos das medidas anunciadas pelo governo fariam se estivessem na cadeira do ministro da Fazenda


 
Mexer no câmbio ou não? Desonerar a folha de pagamento de determinados setores ou acelerar as reformas trabalhista e tributária?
 
Essas são questões que vieram à tona — em tom de crítica ou de elogio, dependendo do interlocutor — junto com o “Pacotão de Páscoa” anunciado pelo governo na última terça feira (3). O plano de R$ 60,4 bilhões elaborado pela equipe do Ministério da Fazenda foi, na opinião de boa parte dos empresários, economistas e analistas ouvidos pelo BRASIL ECONÔMICO insuficiente ou deficitário em vários pontos. Mas, se esses críticos estivessem no lugar de Guido Mantega, o ministro da Fazenda, o que eles fariam?
 
“A maneira mais fácil para estimular a competitividade é com educação, que gera empregados competentes em todos os segmentos da economia”, diz Fábio Pina, assessor econômico da Fecomercio-SP — que representa o setor de comércio e serviços, que ficou de fora do pacote. Pina lembra que não é apenas a indústria que sofre com a crise e que o erro do governo é privilegiar apenas alguns poucos setores. “O comércio e serviços são responsáveis por 70% do PIB e não poderiam
ter ficado de fora. Um setor sozinho não ativa a economia”, afirmou, criticando o fato de a indústria, em especial a automotiva, ter sido o foco do pacote de combate à crise. “O plano é resultado de um pensamento ultrapassado, que pensa uma balança comercial setorizada porque sempre algum setor estará performando melhor que o outro”, critica.
 
A Fecomercio-SP acredita que a melhor maneira para estimular o consumo de produtos nacionais é reduzir sua carga tributária (como foi feito com a desoneração
do Imposto sobre Produtos Industrializados) e não criar mais barreiras à importação — outro ponto polêmico do pacote e que, segundo analistas, fere as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio).
 
A redução do IPI para produtos nacionais, aliás, foi umdos poucos pontos vistos com bons olhos pelo setor varejista, como é o caso da Máquina de Vendas, holding formada pelas bandeiras Ricardo Eletro, Insinuante, City Lar e Eletro Shopping, segunda maior do setor no país.
 
“Estamos bastante otimistas com a decisão do governo de prorrogar o IPI reduzido para linha branca e ampliar a medida para outras linhas”, afirma Luiz Carlos Batista, presidente do Conselho de Administração da Máquina de Vendas. Ele acredita que a redução tem sido repassada ao consumidor, diminuindo os preços e impulsionando as vendas. “Em períodos como esse, de incentivo à expansão da economia, percebemos o consumidor com mais apetite para compra sem abrir mão da qualidade dos produtos; o que tem levado, muitas vezes, à procura por itens de maior valor”, completa o empresário.
 
Já Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), diz que as medidas deveriam ter sido “mais agressivas”. Ele cita como exemplo o Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras (Reintegra) que prevê reembolso por tributos que incidem sobre produtos de exportação. O cálculo da devolução é feito com base em alíquota de 3% da receita obtida pela empresa com produção de bens manufaturados. “Uma boa solução seria aumentar a alíquota do Reintegra”, diz Skaf.
 
Já o presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, afirma que a competitividade da indústria só será resolvida
com medidas que elevem a taxa de câmbio e diminuam os juros do país, dois problemas que ficaram de fora do pacote.
 
Segundo ele, a taxa de câmbio ideal para o Brasil seria uma cotação de R$ 2,30 por dólar. “É necessário impor ao capital estrangeiro uma quarentena para que ele fique no Brasil e compartilhe dos mesmos riscos do capital nacional”, defende.
 
Mas não é o que pensa o exdiretor do Banco Central Carlos Tadeu de Freitas, para quem não incluir câmbio no pacote foi uma certo. Para ele, impor a quarentena sugerida por Neto, “espantaria” a entrada de investimentos no país. Ele ressalta, no entanto, que caso o governo se veja obrigado a intervir no câmbio, a medida mais acertada seria elevar a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Já o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, acredita que o patamar de R$ 1,80 para o câmbio é razoável e elevar o IOF não seria opção. “Isso causa ineficiência no mercado”, diz.
 
O economista Ricardo Amorim é mais duro nas críticas: “o diagnóstico do problema está errado, já que o câmbio não é a razão da falta de competitividade brasileira”, diz Amorim. “Enquanto o governo não cortar gastos, o resto é só perfumaria.”

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