A recuperação do Brasil será rápida.

Entrevista: Amcham Brasil

10/06/2009

Ricardo Amorim: recuperação da economia brasileira será rápida

Ricardo Amorim,
presidente da Ricam Consultoria

A retomada do crescimento do Brasil será muito mais rápida do que a dos países desenvolvidos, em uma curva semelhante a um “V”, ou seja, acelerada expansão após queda acentuada. Quem garante é o economista Ricardo Amorim, que compara o movimento a ser vivido pelo País a um bem mais contido, semelhante a seguidos “W” (leves retomadas que não se sustentam até alcançar o real crescimento), que deverá ocorrer na Europa e nos Estados Unidos.
“A recuperação do Brasil será em “V”. Já a dos desenvolvidos levará anos para acontecer. Eles terão que contrair o consumo – em particular os EUA – e, por conta disso, o crescimento não será sustentável. Haverá um ou dois trimestres bons e depois uma piora”, afirma Amorim, que preside a consultoria Ricam e participou nesta quarta-feira (10/06) do comitê estratégico de Business Affairs da Amcham-São Paulo.
Otimista, Amorim aposta em um grande expansão dos investimentos no País em curto e médio prazos, uma vez que os aplicadores estrangeiros buscarão destinos alternativos diante do baixo crescimento dos países desenvolvidos. “Os investimentos ‘vão bombar’.”
Acompanhe os principais trechos da entrevista:
Amcham: Como o sr. avalia os dados recém-divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que apontam uma diminuição de 1,8% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no primeiro trimestre de 2009 ante o mesmo período de 2008, a segunda queda consecutiva?
Ricardo Amorim: Os números do IBGE foram ruins, mas menos do que se esperava. Estava e estou na ponta mais otimista. Penso que nossa recuperação será muito mais rápida e forte do que todos acham. Calculo que, em 2010, o PIB aumentará 5% – quando a maioria aposta em uma expansão de 3,5% ou 4% – e que neste ano o crescimento será muito próximo de zero, em parte por efeito estatístico. Como o PIB caiu muito no último trimestre de 2008, se ficasse estável no ano inteiro, haveria queda de 1,5%. Na realidade, o resultado será melhor do que isso, o que significa que, na margem, o PIB está crescendo. Avalio que no segundo trimestre deste ano o resultado já será positivo, ainda que pequeno, e que no segundo semestre será fortemente positivo, compensando o efeito estatístico negativo. É importante destacar que esse dado do IBGE mostra o retrovisor. O primeiro trimestre foi mesmo ruim, o último trimestre de 2008 foi péssimo, mas agora as coisas estão razoáveis e estarão bastante boas da segunda metade do ano para a frente.
Amcham: Quais são os principais sinais de retomada que o País esboça?
Ricardo Amorim: São vários. Primeiro, do lado exportador, já começamos a ter uma alta do preço das commodities – caso de petróleo, grãos e minério de ferro. Em segundo, lembro toda a queda de juros que aconteceu e que acontecerá daqui para a frente, colocando mais crédito na economia. Em terceiro lugar, é importante perceber que boa parte da retração no Brasil foi causada por um efeito psicológico. As pessoas viam lá fora uma retração muito forte e tinham medo de que poderia chegar aqui. Num primeiro momento, todos param para olhar e trazem a crise. Foi isso que aconteceu no final do ano passado. Porém, o que se viu é que o que chegou aqui foi muito mais fraco do que o que chegou lá. Com isso, começou a haver retomada nos mais diferentes setores. Os dados mais atuais que temos são os da indústria automobilística. Vemos nela uma recuperação bastante grande em abril e maio em relação ao que ocorreu antes. A sinalização é de que a recuperação já começou, de forma tímida, mas ganhará força.
Amcham: O sr. disse esperar a continuidade da queda dos juros. O Comitê de Política Monetária anuncia nesta quarta-feira a nova Selic, atualmente em 10,25% ao ano. Qual a sua expectativa quanto à decisão?
Ricardo Amorim: Acredito que cortarão menos do que antes, provavelmente 0,75 ou 0,5 ponto percentual. Contudo, o mais importante não é quanto cortarão agora, mas que a Selic continuará caindo daqui para a frente. A taxa fechará este ano em torno de 8,5% e, para o final de 2010, estará em 7%. Este patamar será uma das razões pelas quais haverá uma expansão de crédito muito forte, que levará a uma ampliação do mercado doméstico e isso, por sua vez, conduzirá a um crescimento do PIB mais intenso no próximo ano.
Amcham: Quais são suas projeções relativas ao câmbio e à inflação?
Ricardo Amorim: O câmbio estará por volta de US$ 1,70 no final deste ano e US$ 1,50 ou talvez até abaixo no final do próximo. Ele despencará. Já a inflação ficará em torno de 4% neste ano e, no próximo, provavelmente até um pouco abaixo, em 3,5%.
Amcham: Podemos acreditar em um revigoramento dos investimentos no Brasil?
Ricardo Amorim: Os investimentos “vão bombar” por uma razão muito simples: não haverá crescimento nos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, na Europa e no Japão o PIB cairá neste ano e não aumentará quase nada no próximo. Por conta disso, os estrangeiros terão de investir onde haverá crescimento, ou seja, em alguns emergentes. Os grandes emergentes – Brasil, Índia e China, uma vez que a Rússia enfrenta problemas – são os que receberão o grosso desses recursos. A quantidade de investimentos no Brasil, na minha opinião, aumentará e muito em relação aos últimos três meses.
Amcham: Muitos economistas têm apostado na idéia de uma recuperação da economia global em “W”, isto é, uma leve retomada que não se sustenta, é seguida por nova queda e aí sim dá lugar ao crescimento. O sr. acredita nessa hipótese, seja para os países desenvolvidos, seja para os emergentes?
Ricardo Amorim: Para mim, a recuperação no Brasil será em “V” (forte aceleração após uma queda acentuada). Nos Estados Unidos e na Europa, também não acontecerá em “W”. Isso pressupõe que a primeira retomada será mentira e a segunda, verdade; mas, para mim, a segunda também será mentira. Creio que nesses países a recuperação será em “L” ou talvez como um “www”. A recuperação sustentável dos desenvolvidos levará anos para acontecer. Eles terão que contrair o consumo – em particular os EUA – e, por conta disso, o crescimento não será sustentável. Haverá um ou dois trimestres bons e depois uma piora. É o que aconteceu com o Japão nos últimos 25 anos. Não será preciso demorar tanto, mas não é algo que se resolve em poucos meses. Na Europa, a diferença é que há menos problemas de excesso de consumo; por outro lado, lá havia uma bolha imobiliária maior do que a americana, o que torna a crise pior no curto prazo (um ano a um ano e meio). Acredito, porém, que o continente sairá antes desse marasmo do que os EUA.
Amcham: E com relação ao Japão, o que o sr. prevê?
Ricardo Amorim: No Japão, o problema será mais profundo. Lá, o PIB cairá muito mais neste ano, mas, paradoxalmente, também acho que haverá uma retomada antes da americana por ser mais ligado à economia do restante da Ásia, que sairá com força.
(Entrevista concedida à editora Giovanna Carnio)
O que aconteceu?

Após 24 anos Brasil pode ter crescimento espetacular – publicado no GuiaInvest em 09/06/2010
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