A Saúde no Brasil nunca mais será a mesma

10/2015

Associação Paulista de Medicina

Por Ricardo Amorim

 

Saúde no Brasil

 

Nunca antes na história deste planeta, tantos setores e subsetores econômicos passaram por rupturas tão rápidas de seus modelos de negócios como nos últimos 10 anos. No Brasil não foi diferente. Para me limitar ao setor de turismo, sites de vendas de passagens mudaram radicalmente o negócio das agências de viagem, o Airbnb ameaça os negócios dos hotéis e o Uber trouxe uma concorrência antes inexistente aos taxistas e suas cooperativas.

 

E se, ao invés de uma revolução, o seu setor estivesse sujeito aos impactos de quatro revoluções ao mesmo tempo? É exatamente o que vai acontecer com o setor de saúde no Brasil. As mudanças serão radicais e irreversíveis, transformando completamente o negócio, a forma de atuação e as perspectivas para todos no setor.

 

A primeira revolução será tecnológica.

 

No passado, a tecnologia para tratamentos de saúde era baixa, assim como os custos e o acesso de doentes a tratamento. Com o passar do tempo, a tecnologia evoluiu cada vez mais, encarecendo exponencialmente os tratamentos, o que continuou a impedir que muitos tenham acesso aos tratamentos ainda hoje. A grande mudança atual é que várias das novas tecnologias médicas digitais em desenvolvimento não apenas melhorarão os tratamentos, mas também os baratearão, tornando-os mais acessíveis. Tratamentos e técnicas de monitoramento antes disponíveis só em grandes centros médicos estão sendo transferidas para consultórios médicos e até para a casa ou o corpo do próprio paciente. Equipamentos, software e aplicativos de monitoramento à distância permitirão grandes avanços no tratamento de doenças cardíacas, asma e diabetes. Uso de tele-saúde permitirá grandes reduções de custo em tratamentos de rotina e psicológicos – o médico e o paciente não precisarão mais necessariamente estar no mesmo lugar para diagnósticos e tratamentos. Plataformas eletrônicas de monitoramento e aconselhamento ajudarão pessoas a modificarem seu comportamento, tornando, por exemplo, o combate à obesidade e ao fumo e melhoras de qualidade de vida mais baratas e eficientes.

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A segunda revolução é econômica.

 

Na última década, a queda da taxa de juros barateou o crédito e o dólar baixo barateou produtos importados, permitindo que equipamentos que antes só podiam ser comprados por grandes hospitais fossem adquiridos por consultórios médicos. Isto trouxe aos médicos a oportunidade de transformar consultórios individuais em clínicas especializadas com vários profissionais, transformando-os em empresários. Em muitos casos, isto ocorreu sem que eles recebessem nenhuma capacitação administrativa ou financeira. As recentes altas dos juros e dólar trouxeram desafios importantes para parte destas clínicas.

 

A terceira revolução é socioeconômica.

 

Nos últimos 10 anos, quase 60 milhões de brasileiros entraram nas classes A, B e C. Com maior renda e a baixa qualidade dos serviços públicos de saúde no país, eles passaram a demandar serviços privados de planos de saúde, hospitais, farmácias, laboratórios e médicos.

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O número de usuários de planos de saúde, por exemplo, cresceu em mais de 20 milhões de pessoas entre 2002 e 2012. Recentemente, este processo foi revertido pela crise econômica e o aumento do desemprego. No entanto, como só 25% dos brasileiros têm um plano de saúde privado – comparado com 84% dos americanos – ele deve ser retomado quando a economia recuperar-se. Além disso, a procura por serviços de saúde privados também deve crescer porque o inevitável ajuste das contas públicas limitará os recursos disponíveis no setor público.

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A quarta revolução é demográfica.

 

Com a queda da taxa de natalidade e o crescimento da expectativa de vida, a população brasileira envelhecerá rapidamente nas próximas décadas. No ano passado, mais de 30% dos brasileiros tinham até 18 anos e apenas 12% tinham 59 anos ou mais. Em 15 anos, já haverá mais mulheres com 59 anos ou mais do que com 18 anos ou menos. Em 2060, haverá o dobro de brasileiros e o triplo de brasileiras com 59 anos ou mais do que com 18 anos ou menos. Nos próximos 45 anos, a participação de idosos na população brasileira vai triplicar. A procura por especialidades médicas mudará completamente. Precisaremos de muito mais geriatras e muito menos pediatras. Dentro de cada especialidade médica, as doenças e problemas mais comuns também mudarão. Por exemplo, haverá menos casos de estrabismo, mas mais casos de catarata.

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Em resumo, se você acha que turismo e transporte mudaram muito nos últimos anos, imagine o que vai acontecer com a Saúde no Brasil.

 

Você está preparado?

 
 

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