A vez da indústria no interior?

07/2017

Por Ricardo Amorim

 

 
Desde 2002, as cidades do interior do Brasil vêm consistentemente crescendo mais e gerando mais empregos do que as capitais. Em dezembro de 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio. Desde então, impulsionado pelo crescimento da demanda chinesa por alimentos, o agronegócio tem sido uma das principais molas propulsoras da economia brasileira e as cidades do interior do país têm superado  as capitais em crescimento econômico. Os chineses são muitos, eram muito pobres e, com o país crescendo, muitos passaram a ter mais dinheiro e a comer mais e melhor.
 
Enquanto  isso, o ganho de mercado da indústria chinesa teve um impacto extremamente negativo na indústria brasileira. Os chineses inundaram o mundo de produtos baratos e para completar, o Brasil não fez nada para reduzir os custos e estimular a produção no país. Nos últimos 15 anos, só estimulamos o consumo. O resultado? A indústria brasileira encolheu e demitiu muita gente.
 
No início deste ano, uma destas tendências mudou, a outra não. Os empregos continuaram a ser gerados nas cidades do interior. Das 20 cidades que mais criaram empregos nos primeiros 5 meses desse ano, 19 estão no interior. A única exceção foi Goiânia, que apesar de ser capital é positivamente impactada pela agroindústria. Das 27 capitais, apenas 3 abriram mais novos postos de trabalho formal nesses primeiros 5 meses do que fecharam, entre outras razões em função das dificuldades agudas vividas pelo setor público, do qual as economias de várias capitais de estados dependem bastante.
 
A novidade é que agora a geração de emprego foi liderada pela indústria. Das 20 cidades que mais cresceram, em 5 a agroindústria foi o setor que mais contratou. Foi o caso em Vacaria – RS, em Cristalina – GO, Patrocínio – MG e Mogi Guaçu e Bebedouro – SP. Mas em 11, incluindo Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires – RS,  Nova Serrana – MG, Juazeiro – BA, Goianésia – GO e Pontal, Vista Alegre do Alto e Birigui – SP, o setor que mais contratou foi a indústria.
 
Em algumas cidades do interior que lideraram a criação de novos empregos, foram exatamente os subsetores industriais que recentemente mais passaram  por dificuldades que lideraram a geração de empregos. Em Joinville – SC, foi a indústria de de autopeças quem mais criou empregos. Em Franca – SP, a cidade que mais gerou empregos em todo o Brasil, as contratações vieram principalmente da indústria calçadista, que até pouco tempo era dizimada pela concorrência chinesa.
 
O que deixou os  empresários industriais confiantes para fazerem estes investimentos? A expectativa de que a produção no Brasil ficaria mais barata e competitiva nos próximos anos. Eram esperados dois grandes estímulos à redução de custos e, por consequência à produção e à geração de empregos. Primeiro, a Reforma Trabalhista. Hoje, há dúvidas se ela será aprovada. Mesmo que seja, concessões significativas para sua aprovação tornaram-se prováveis. Consequentemente, seu impacto de redução de custos – principalmente legais – deve ser menor, assim como sua capacidade de estimular a criação de mais empregos.
 
Segundo, esperava-se uma Reforma Tributária que reduziria tanto os custos burocráticos, com a simplificação de nosso sistema tributário ultra complexo, quanto a carga tributária. Menos impostos e menos custos com contadores e advogados barateariam os produtos nacionais, tornando-os mais competitivos e, por consequência, estimulando mais investimentos e empregos. Infelizmente, hoje, sem a perspectiva de aprovação da Reforma Previdenciária – que reduziria gastos públicos, criando espaço para reduções de impostos – a possibilidade de uma Reforma Tributária que reduza a carga de impostos no país parece remota. É mais provável que os impostos subam, ao invés de cair.
 
Um novo ciclo de crescimento e geração de emprego se iniciava. Após 13 nos consecutivos em que as vendas do varejo tiveram melhor desempenho do que a produção da indústria, tudo indicava que a indústria seria uma das líderes deste ciclo de crescimento. A questão agora é se o agravamento da crise política após as delações da JBS não vai abortar ou ao menos postergar este novo ciclo.
 
Ricardo Amorimautor do bestseller Depois da Tempestade, apresentador do Manhattan Connection da Globonews, o economista mais influente do Brasil segundo a revista Forbes, o brasileiro mais influente no LinkedIn, único brasileiro entre os melhores palestrantes mundiais do Speakers Corner e ganhador do prêmio Os + Admirados da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças.
 
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